Relatório aponta falha de comunicação no caso Jean Charles

O relatório da Comissão Independente de Queixas contra a Polícia Britânica (IPCC, na sigla em inglês) sobre a morte de Jean Charles de Menezes, entregue nesta quinta-feira à Promotoria britânica, deve apontar "problemas sérios de comunicação" entre os policiais no dia da morte do brasileiro.Segundo informações do relatório, a comandante Cressida Dick, a oficial do dia "quase não tinha dormido, por causa da falta de oficiais graduados da Scotland Yard treinados para lidar com ameaças de homens-bomba". Ela supervisionava os policiais armados, e o colega dela, comandante John McDowell, liderava o trabalho dos homens que vigiavam o prédio do brasileiro naquele dia.No entanto, não ficou claro a quem as prováveis críticas contidas no relatório do IPCC foram dirigidas. O eletricista foi morto com sete tiros na estação de metrô de Stockwell, no sul de Londres, mas segundo uma testemunha ocular, a polícia disparou 11 vezes.JulgamentoDe posse do relatório da comissão investigadora, a Promotoria vai decidir - o que pode levar cerca de um mês - se existem provas e motivos suficientes para responsabilizar criminalmente um ou mais envolvidos no episódio que levou à morte do brasileiro. "O documento agora vai ser analisado por um jurista graduado da nossa Divisão de Crimes Especiais, e a decisão vai ser passada à IPCC", diz a nota da Promotoria. Caso fique estabelecido que realmente houve uma ação criminal da parte dos policiais, a Promotoria pode levá-los a julgamento por homicídio culposo ou doloso (intencional).No entanto, o documento elaborado pela comissão não vai ser divulgado ao público até que a Promotoria tome sua decisão. Caso se decida por levar alguém a julgamento, o relatório só será divulgado no fim de todo o processo.Família reclama falta de informaçãoA família de Jean Charles de Menezes reclamou nesta quinta-feira de "estar sendo mantida no escuro" pelo IPCC. "A gente não sabe de nada. Tudo o que eu posso dizer é que é uma completa falta de respeito com a família. Estão fazendo tudo no escuro. Desde o começo, vi que não estavam fazendo um trabalho bonito", criticou Alex Pereira, um dos primos de Jean Charles que moram na capital britânica.Em entrevista à BBC Brasil em dezembro de 2005, o presidente do IPCC, Nick Hardwick, disse que o grupo sabia exatamente o que acontecera naquele dia e quais teriam sido os responsáveis pelos acontecimentos. "A lei nos obriga a enviar o relatório à Promotoria se houver qualquer possibilidade de que um crime tenha sido cometido", disse Hardwick, deixando claro que a decisão final fica a cargo da Promotoria, mas que a entrega do relatório já indica que há possibilidade de julgamento criminal.Documentos relacionados ao inquérito da IPCC, vazados para a imprensa em agosto, parecem contradizer os depoimentos de testemunhas oculares e as declarações iniciais da polícia, que afirmou que Jean Charles usava "roupas e apresentava comportamento" que aumentou as suspeitas de que ele poderia ser um terrorista suicida.Uma testemunha disse à IPCC que 11 tiros foram disparados. "Os tiros foram dados em intervalos repetidos, com cerca de três segundos entre cada um dos primeiros disparos. Depois o intervalo ficou um pouco maior. E aí os tiros novamente voltaram a ser dados em intervalos repetidos", diz a transcrição do depoimento.Jean Charles de Menezes, que tinha 27 anos, foi morto na estação de metrô de Stockwell, no sul de Londres, depois das tentativas de ataques terroristas no sistema de transporte da cidade, no dia 21 de julho. Ele levou sete tiros na cabeça.Os investigadores do IPCC entrevistaram vários oficiais da polícia metropolitana, de várias patentes, a respeito da morte de Jean Charles, mas não entrevistaram o chefe da polícia de Londres, Ian Blair.A comissão está realizando uma investigação à parte para verificar como Ian Blair tratou do caso. Todos os 30 passageiros que estavam no trem do metrô quando Jean Charles foi baleado foram entrevistados, e a IPCC coletou um total de 600 declarações escritas.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.