Relatório da CIA sobre Iraque abre polêmica nos EUA

A Casa Branca, pressionando o Congresso para endossar sua campanha para atacar o Iraque, enfatizou nesta quarta-feira que uma avaliação da CIA de que um ataque militar poderia provocar uma resposta terrorista confirma o perigo que Saddam Hussein representa para os Estados Unidos.O diretor da CIA, George Tenet, disse, em carta enviada a congressistas e divulgada nesta terça-feira, que o Iraque "parece, no momento, estar estabelecendo a tática de não promover ataques terroristas com armas convencionais ou químicas ou biológicas". Mas advertiu que Saddam pode usar tais armas para objetivos terroristas, caso se veja na iminência de ser atacado pelos EUA.Tenet "não disse que estamos bem", interpretou nesta quarta-feira o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer. "Se Saddam aponta uma arma para a cabeça de alguém, enquanto nega até que tenha uma arma, você realmente quer ter a certeza de que ele nunca a usará".Mas o deputado Donald Payne, um democrata de New Jersey, afirmou que o relatório de Tenet sugere que um ataque contra o Iraque "poderia provocar exatamente as coisas que nosso presidente diz estar tentando evitar, o uso de armas químicas ou biológicas. Em vista desse relatório, a política de ataque preventivo é preocupante".A carta de Tenet foi divulgada no momento em que o Congresso se prepara para votar uma resolução que daria ao presidente ampla autoridade para usar a força militar a fim de desmantelar as armas de destruição em massa que Saddam supostamente possuiria. Bush também busca uma resolução das Nações Unidas exigindo que Saddam se desarme ou sofra as conseqüências, inclusive militares.A Grã-Bretanha apóia os EUA na questão da resolução da ONU, mas outros três membros com poder de veto do Conselho de Segurança - Rússia, China e França - são contrários. A França sugere uma resolução alternativa que daria ao Iraque a chance de cooperar com os inspetores de armas da ONU.Em Moscou, o vice-chanceler, Yuri Fedotov, disse que a Rússia poderia aceitar uma nova resolução, caso ela não contemple o automático uso da força se Bagdá não colaborar com as inspeções. O secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, em conversas com aliados, percebeu que "existe alguma convergência em conceitos" sobre o que o Conselho de Segurança deve fazer, garantiu seu porta-voz, Richard Boucher.Mas Boucher disse que o texto comum ainda não começou a ser trabalhado, e duas outras autoridades americanas reconheceram que nem a França nem a Rússia se aproximaram da proposta dos EUA. Os embaixadores de EUA, França, Rússia, Grã-Bretanha e China na ONU iriam reunir-se na noite desta quarta-feira em Nova York para avaliar a situação.O Congresso americano continua disposto a dar a Bush os poderes que o presidente quer para combater a ameaça que ele acredita seja o Iraque de Saddam, mas não antes de levantar questões sobre o perigo de usar a força militar sem o apoio de uma coalizão internacional. Quando os debates foram retomados nesta quarta-feira, o senador de Nevada Harry Reid, o segundo líder dos democratas no Senado, disse que concederia a Bush o poder de fazer a guerra, mas exortaria o presidente a usar tal poder com prudência."Presidente Bush, o império da lei importa, assim como um decente respeito à opinião do resto do mundo. Como presidente dos Estados Unidos, o senhor é o líder do mundo livre, não seu governante", afirmou Reid. Depois de um dia inteiro de discursos, nesta terça-feira, a Câmara dos Deputados parecia preparada para votar sua resolução. Mas, no Senado, a esperança de uma rápida votação desvaneceu-se quando o senador democrata Robert Byrd deixou claro que usaria táticas parlamentares de postergação para jogar o debate para a semana que vem.Byrd, um defensor incondicional dos direitos constitucionais do Senado, disse que a resolução proposta por Bush era um "cheque em branco" que "cede o poder de decisão do Congresso estabelecido pela Constituição de declarar guerra". Ele sugeriu que a questão seja postergada para depois das eleições de novembro nos EUA.Em conversa telefônica com Bush, o presidente francês, Jacques Chirac, disse que a França está aberta a "fortalecer os poderes e meios de ação dos inspetores de armas da ONU", segundo a porta-voz presidencial Catherine Colonna. No entanto, de acordo com ela, Chirac afirmou que a opinião do chefe dos inspetores de armas da ONU, Hans Blix, deve ser levada em conta. O presidente francês também reafirmou a posição de seu governo segundo a qual a França não pode aceitar o recurso automático à força militar, caso os inspetores da ONU não possam levar a cabo seu trabalho. A ação militar deve ser o último recurso, disse Chirac.

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