Relatório da Human Rights Watch descreve o terror dos centros de tortura da Síria

Segundo a ONG, até crianças estão sofrendo maus-tratos; entidade pediu o julgamento dos responsáveis por tribunais internacionais

BBC Brasil, BBC

03 de julho de 2012 | 08h18

DAMASCO - Com base no depoimento de mais de 200 ex-detentos e de alguns desertores a ONG Human Rights Watch publicou um relatório no qual detalha a rotina de medo e crueldades dos centros de detenção sírios, incluindo a tortura de crianças.

A organização acusa o governo do presidente da Síria, Bashar al-Assad, de usar tortura de forma sistemática, como uma política de Estado para espalhar o terror entre os dissidentes.

No relatório, que recebeu o nome de "Arquipélago da Tortura", a Human Rights Watch identificou 27 centros de tortura, os métodos mais utilizados para extrair informações e confissões das vítimas, além das agências e autoridades responsáveis pelos abusos.

O documento também descreve o uso indiscriminado de desaparecimentos forçados e prisões arbitrárias.

Segundo os ex-detentos, entre os métodos de tortura mais utilizados estão choques elétricos, abuso sexual (de mulheres e homens), espancamentos e chicotadas e privação de sono.

Alguns disseram ter visto pessoas morrerem sob tortura.

Crianças torturadas

Entre os ex-prisioneiros que colaboraram com a Human Rights Watch estão mulheres e crianças.

Um menino de 13 anos relatou como foi torturado por três dias em um centro militar perto de TalKalakh, no oeste do país, próximo à fronteira com o Líbano.

"Eles me deram choques no estômago durante o interrogatório e eu desmaiei", disse. "Quando me interrogaram pela segunda vez, me bateram e me deram mais choques. Na terceira vez, usaram um alicate para tirar minhas unhas."

Outro prisioneiro disse ter visto uma criança de 8 anos ser espancada a seu lado.

Em um dos métodos de tortura mais frequentes, revelados com base em relatos, prisioneiros são pendurados apenas pelos pulsos, de modo que seus pés não possam tocar o chão. Em seguida, são espancados nessa posição com bastões e cabos.

Em outro método, os detentos recebem golpes nas solas dos pés até que sangrarem, o que os impede de caminhar.

Segundo os ex-prisioneiros, as prisões sírias também estão superlotadas e há falta de comida.

Resposta internacional

Um ex-oficial da inteligência síria citado no relatório disse que as ordens de tortura vieram de integrantes da cúpula das forças de segurança próximos a Assad.

A Human Rights Watch apóia o envio de observadores da ONU para monitorar a situação nos centros de detenção na Síria. A organização também defende que a questão seja submetida ao Tribunal Penal Internacional (TPI) para que os responsáveis sejam punidos.

No entanto, como a Síria não ratificou o estatuto do tribunal, o TPI só poderia julgar os integrantes do governo Sírio com a aprovação do Conselho de Segurança - onde o tema é barrado por Rússia e China.

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