REUTERS/Pierre Albouy
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Relatório da ONU pede que TPI investigue acusações contra EI

Investigação das Nações Unidas acusa jihadistas de praticaram genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra

Jamil Chade, Enviado Especial / ZURIQUE, O Estado de S. Paulo

19 Março 2015 | 09h54

ZURIQUE - As Nações Unidas acusam o Estado Islâmico (EI) de cometer genocídio contra a população yazidi, além de crimes de guerra e crimes contra a humanidade e pede que o Conselho de Segurança leve o caso para ser julgado no Tribunal Penal Internacional (TPI). 

Em um relatório publicado na manhã desta quinta-feira, 19, a entidade revela detalhes dramáticos da ação do grupo extremista no Iraque: garotas de até seis anos são dadas como "presentes" aos combatentes do EI e estupradas. 

A investigação foi conduzida por uma equipe da ONU que entrevistou dezenas de pessoas, entre sobreviventes, testemunhas e autoridades, de junho a fevereiro. "As violações por parte do EI contra vários grupos étnicos e religiosos no Iraque podem ser consideradas crimes de genocídio", alertou a entidade. 

Tortura, assassinatos e sequestros também foram realizados pelas forças de segurança do Iraque, em colaboração com milícias. Para a ONU, existem indícios de que as forças oficiais também cometeram crimes de guerra. No entanto, são os crimes do EI que chamam a atenção, incluindo crimes sexuais e o sequestros de mulheres para serem escravas sexuais. 

A ONU também denuncia a conversão religiosa forçada de populações e o uso de crianças em grupos armados. Para a entidade, essas provas apontariam para crimes de guerra e crimes contra a humanidade. 

Genocídio. O estudo revela que EI foi passou a focar suas ações para cometer genocídio, principalmente contra populações yazidis. De acordo com a investigação, "houve a tentativa de destruir os yazidis como um grupo". "Isso sugere que o EI possa ter cometido genocídio."

O texto cita ainda a "morte brutal" de centenas de homens e garotos em agosto na Província de Nínive. "Em muitos vilarejos, a população foi amarrada, garotos de mais de 14 anos foram separados de mulheres e meninas, e mortos pelo EI. Enquanto isso, as mulheres foram sequestradas como parte de um espólio da guerra", afirmou a ONU. "Em alguns casos, vilarejos inteiros foram esvaziados."

Algumas mulheres e garotas que fugiram contaram aos investigadores da ONU que foram "vendidas ou dadas como presentes para membros do EI". "Testemunhas contam como escutaram meninas entre seis e nove anos gritando enquanto eram estupradas em uma casa usada por combatentes do EI", apontou o relatório.

O documento também revela como uma mulher grávida conta que foi estuprada por um "médico do EI" por mais de dois meses. Para completar, ele sentava sobre sua barriga. "Esse bebê precisa morrer, pois é um infiel. Eu vou fazer um bebê muçulmano", teria dito.

Meninos com mais de oito anos também foram separados de sua família e levados a outras regiões do Iraque e na Síria para que serem convertidos ao islã. Os garotos recebem treinamento militar, aprender a disparar foguetes e são obrigados a assistir vídeos de decapitações. "Essa era nossa iniciação", afirmou um dos jovens ouvidos pela ONU.

Os ataques não se limitaram aos yazidis. Segundo as Nações Unidas, cristãos, curdos, xiitas e outras etnias e grupos religiosos também recebem o mesmo tratamento. A entidade lembra que, em junho, milhares de cristãos foram ordenados a deixar suas cidades, se converter ao islã ou pagar uma taxa. No mesmo mês, 600 homens xiitas foram assassinados pelos jihadistas e jogados em um riacho. 

No dia 12 de junho, cerca de 1,5 mil cadetes das forças oficiais do Iraque foram massacrados, mesmo tendo se entregue. Ao entrar em uma das casas e ver que um homem era um policial, o EI cortou a garganta de seu pai, matou seu filho de cinco anos e uma filha de cinco meses. Quando o policial pediu que ele fosse morto, os combatentes responderam: "não vamos te matar. Queremos que você sofra".

A ONU alertou que cabe aos governos da Síria e do Iraque levar os responsáveis por crimes entre suas forças e entre milícias que os apoiam aos tribunais. "Os autores desses crimes precisam ser levados à Justiça", declarou a entidade. 

Quanto aos crimes do EI, a entidade apela para que o Conselho de Segurança peça ao TPI que uma investigações sobre genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra seja iniciada.

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