Jonathan Newton/The Washington Post via AP, Pool
Jonathan Newton/The Washington Post via AP, Pool

Relatório de abusos nos Estados Unidos tem alcance inédito

Estudo foi elaborado por um grande júri que levou dois anos investigando seis das oito dioceses da Pensilvânia

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2018 | 05h00

Os EUA católicos ainda não estavam refeitos do choque quando foram atingidos por novo raio. Duas semanas após um dos mais conhecidos prelados do país entregar seu barrete cardinalício, acusado de molestar rapazes, um relatório devastador mostrou em detalhes os crimes sexuais cometidos por mais de 300 padres na Pensilvânia durante 70 anos. 

Mais de mil crianças (provavelmente muitas mais) foram vítimas de padres, em abusos sistematicamente varridos para baixo do tapete, segundo o relatório de 900 páginas publicado na terça-feira, quando o catolicismo se preparava para uma de suas mais veneradas celebrações anuais, a da Assunção da Virgem Maria. 

O relatório foi elaborado por um grande júri que levou dois anos investigando seis das oito dioceses do Estado. Os jurados ouviram dezenas de testemunhas e usaram o poder de pressão do órgão para ter acesso a 500 mil páginas de documentos eclesiásticos. 

A Igreja americana vem enfrentando sucessivas denúncias de abusos sexuais desde que elas começaram a ser divulgadas na arquidiocese de Boston, duas décadas atrás. Bilhões de dólares em indenizações já foram pagos às vítimas. A investigação do grande júri, porém, centrada num Estado há muito conhecido como centro do operariado católico, foi a mais ampla do gênero até agora.

As aterradoras descobertas dos jurados seguiram-se à decisão do papa Francisco de aceitar a renúncia do cardeal Theodore McCarrick, um religioso católico americano de 88 anos. Como arcebispo de Washington, ele é lembrado nos corredores do poder como uma figura familiar e afável. Desde os anos 20, um prelado não perdia seu status de cardeal. 

O relatório da Pensilvânia tem uma conotação emocional incomum para um documento legal. Os jurados começam com as palavras: “Vocês precisam tomar conhecimento disso. Houve outros relatórios sobre abusos de crianças na Igreja Católica, mas nunca em uma escala como essa. Sabemos agora a verdade: eles ocorreram por toda parte”. 

Os jurados citam muitos exemplos sombrios de abuso. Um padre da diocese de Erie, noroeste da Pensilvânia, confessou o estupro de pelo menos 15 crianças e adolescentes, alguns de apenas 7 anos. Esse padre foi descrito por seu bispo como “pessoa cândida e sincera”, que merece louvores “por seu trabalho contra o vício das drogas”. 

Os jurados ressalvaram que muito mudou nos últimos 15 anos e hoje a Igreja parece mais ágil em denunciar os abusos à polícia. Eles descreveram como “franco e sincero” o testemunho pessoal do atual bispo de Erie. 

Entretanto, o grande júri considerou lamentável que, graças a um cínico encobrimento e a limitações legais, ficou tarde demais para entrar com processo na vasta maioria dos casos. 

Eles pediram urgência aos parlamentares do Estado na remoção de limites temporais para julgamento de crimes desse tipo. Uma mudança recente possibilitou a vítimas prestar queixa até a idade de 50 anos, mas os jurados consideram o quadro ainda muito restritivo. O Vaticano qualificou o escândalo na Pensilvânia de “criminoso e moralmente repreensível”.

Em sua resposta ao relatório, os bispos intercalaram um profundo arrependimento pelos casos passados com a insistência em que as coisas melhoraram, principalmente desde 2002, quando a Igreja adotou novas normas para lidar com abusos sexuais. O cardeal McCarrick ajudou a elaborar as novas normas de conduta, das quais ele mesmo acabaria vítima. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ  

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