Relatório de ElBaradei é ambíguo e crucial

Mohamed ElBaradei, diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), entregou anteontem seu relatório sobre o programa nuclear iraniano. Esse relatório é ambíguo. Ele se confessa incapaz de dizer se o programa atômico do Irã tem uma finalidade civil ou militar. O que é certo, porém, é que ElBaradei, o principal fiscal do desenvolvimento nuclear iraniano, está pessimista. Isso é uma novidade. Até agora, ElBaradei negava que o Irã estivesse avançando em obter a bomba nuclear. Ele chegou a ser acusado, em Washington, de mostrar complacência demais para os caprichos iranianos. Isso está mudando. Sem chegar ao extremo de acusar o Irã de estar preparando equipamentos nucleares para fins militares, ele mostra menos indulgência para com os chefes de Teerã. Esse relatório chega num momento crucial. Nos próximos dias, a ONU vai decidir se aumenta suas sanções contra um Irã belicoso. Washington não perdeu a oportunidade. Desde a quinta-feira, os EUA anunciavam que iam elaborar com seus parceiros uma terceira "onda de sanções" da ONU. A Inglaterra e, sobretudo, a França acompanham os humores de Washington. Todavia, tanto Paris como Londres esperam a publicação de um segundo relatório, desta vez de um político, Javier Solana, chefe da diplomacia européia, e que deve decidir em breve como responder ao Irã sobre suas demandas de cooperação com a União Européia (UE). Será uma coincidência? De qualquer modo, quando se volta a falar em intensificar as sanções contra o Irã, o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, acaba de enviar uma longa carta ao presidente francês, Nicolas Sarkozy. No fundo, a carta é banal. Ela reitera posições várias vezes expressas sobre o dossiê nuclear. A novidade, porém, está no estilo: uma prosa extremamente agressiva e um tanto ameaçadora. Ahmadinejad se permite descrever Sarkozy como um dirigente "jovem e inexperiente". As relações Paris-Teerã estão no ponto mais baixo desde a eleição de Sarkozy. Ele é direto, às vezes, brutal. Mas, aos olhos de Ahmadinejad, o pecado mais mortal de Sarkozy é ter explicitamente se aproximado da posição americana sobre o tema das sanções financeiras ao Irã. Para Teerã, o pior é que a França parece se ligar às posições belicistas de Washington. Tanto Sarkozy como seu ministro das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, por diversas vezes visualizaram, embora preferissem afastá-la, a hipótese de um bombardeio do Irã se este país continuar desenvolvendo sua energia nuclear. A acidez de Ahmadinejad se explica. Nos últimos meses, o Irã, isolado do Ocidente, queria "jogar a carta francesa" na Europa. Jacques Chirac, então presidente, era um parceiro complacente. Em suma: os iranianos gostavam de Chirac e não gostam de Sarkozy. * Correspondente em Paris

Gilles Lapouge*, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2007 | 00h00

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