Tingshu Wang/REUTERS
Tingshu Wang/REUTERS

Relatório de inteligência dos EUA diz que China é a maior ameaça para o país e para o mundo

Documento não prevê um confronto militar com outras potências, mas sugere que 'batalhas de zona cinzenta' pelo poder se intensificarão com operações de inteligência, ataques cibernéticos e avanços globais por influência

Julian E. Barnes, The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2021 | 20h00

WASHINGTON - O esforço da China para expandir sua crescente influência representa uma das maiores ameaças aos Estados Unidos, de acordo com um importante relatório anual de inteligência divulgado nesta terça-feira, 13, que também discorre sobre os amplos desafios à segurança nacional impostos por Moscou e Pequim.

O relatório não prevê um confronto militar com a Rússia ou a China, mas sugere que as chamadas "batalhas de zona cinzenta" pelo poder - aquelas que ficam aquém de incitar uma guerra total - se intensificarão com operações de inteligência, ataques cibernéticos e avanços globais por influência.

A avaliação destaca as oportunidades e desafios para a gestão Biden. O Irã, por exemplo, não avançou seu trabalho em busca de uma arma nuclear, o que pode dar alguma margem de manobra ao presidente americano. Mas o relatório pinta um prognóstico sombrio para um acordo de paz no Afeganistão.

Embora grande parte do relatório descreva os desafios tradicionais de segurança nacional, o texto também dá muito mais atenção à mudança climática e à saúde global do que as avaliações anteriores. Essa mudança reflete a promessa das principais autoridades de inteligência do governo Biden de se concentrar mais em desafios não tradicionais.

O relatório coloca a pressão da China por “poder global” em primeiro lugar na lista de ameaças, seguida pela Rússia, Irã e Coreia do Norte. Normalmente aparecem poucas revelações nos relatórios anuais, que são uma coletânea de avaliações não confidenciais, embora os critérios de classificação de ameaça das agências de inteligência e sua variação ao longo do tempo possam ser reveladores.

“Pequim, Moscou, Teerã e Pyongyang demonstraram a capacidade e a intenção de promover seus interesses em detrimento dos Estados Unidos e de seus aliados, apesar da pandemia”, disse o relatório. “A China está se tornando um competidor cada vez mais próximo, desafiando os Estados Unidos em múltiplas arenas - especialmente nos planos econômico, militar e tecnológico - e vem pressionando para mudar as normas globais”.

A estratégia da China, de acordo com o relatório, é criar barreiras entre os Estados Unidos e seus aliados. Pequim também usou seu sucesso no combate à pandemia de coronavírus para promover a “superioridade de seu sistema”.

O relatório prevê mais tensões no Mar da China Meridional, à medida que Pequim continua a intimidar os rivais na região. Também prevê que a China pressionará o governo de Taiwan para que avance com a unificação e critique os esforços dos Estados Unidos para reforçar o envolvimento com Taipei. Mas o relatório não chegou a prever qualquer tipo de conflito militar direto.

“Esperamos que o atrito cresça à medida que Pequim intensifique as tentativas de retratar Taipei como capital internacionalmente isolada e dependente do continente para prosperar na economia e que a China continue a aumentar a atividade militar ao redor da ilha”, disse o relatório.

O relatório também prevê que a China pelo menos dobrará seu estoque nuclear na próxima década. “Pequim não está interessada em acordos de controle de armas que restrinjam seus planos de modernização e não concordará com negociações substantivas que garantam as vantagens nucleares dos Estados Unidos ou da Rússia”, diz o documento.

A China usa sua vigilância eletrônica e capacidade de hackeamento não apenas para reprimir dissidentes internamente, mas também para conduzir intrusões que afetam pessoas além de suas fronteiras, disse o relatório. O país também representa uma crescente ameaça de ataques cibernéticos contra os Estados Unidos, e as agências de inteligência avaliam que Pequim “pode, no mínimo, causar interrupções temporárias e localizadas na infraestrutura fundamental dos Estados Unidos”.

Existem poucas surpresas na avaliação do relatório sobre a Rússia. Ele deixa claro que, embora muitos vejam Moscou como uma potência em declínio, as agências de espionagem americanas ainda a consideram uma ameaça preeminente, apontando para um hackeamento russo que criou vulnerabilidades em cerca de 18 mil redes de computadores em todo o mundo. A avaliação disse que, embora a Rússia evite conflito direto com os Estados Unidos, o país usará campanhas de influência, operações mercenárias e exercícios militares para promover seus interesses e minar os de seu rival.

Biden falou com o presidente Vladimir Putin nesta terça-feira, 13. Enquanto levantava a perspectiva de uma cúpula com Putin, Biden o pressionou sobre o recente aumento de tropas russas na fronteira com a Ucrânia e na Crimeia. O relatório afirma que a Rússia buscará oportunidades de cooperação pragmática, mas também pressionará os Estados Unidos a não interferir nas preocupações internas da Ucrânia e de outros países da ex-União Soviética.

Embora as ciberameaças tenham sido tradicionalmente uma seção separada do relatório, a avaliação deste ano fez mais um esforço para inserir esses ataques em um quadro mais amplo de ameaças, examinando o histórico de invasões da China e da Rússia contra os Estados Unidos.

As agências de inteligência estão certas em redirecionar a avaliação da ameaça para a Rússia e a China, disse o deputado Adam B. Schiff, democrata da Califórnia, presidente do Comitê de Inteligência da Câmara.

“A China é uma potência em ascensão e um desafio em ascensão”, disse Schiff, cujo comitê elaborou um relatório no ano passado pedindo que mais recursos sejam dedicados à China. “A Rússia é uma potência moribunda. Representa a ameaça de um animal ferido que é perigoso porque está encurralado”.

O relatório deste ano oferece uma discussão muito mais robusta sobre as implicações das mudanças climáticas para a segurança nacional, cujas ameaças, na maior parte, são de longo prazo, mas também podem ter consequências de curto prazo, disse o relatório.

Geralmente, o diretor de inteligência nacional entrega a avaliação de ameaças ao Congresso e libera um relatório escrito. Mas nenhuma avaliação não confidencial foi emitida no ano passado, uma vez que as agências de inteligência do governo Trump evitavam irritar a Casa Branca.

Em 2019, Dan Coats, então diretor de inteligência nacional, fez uma análise das ameaças do Irã, da Coreia do Norte e do Estado Islâmico que estava em desacordo com as opiniões do presidente Donald Trump. O testemunho levou Trump a atacar no Twitter, exortando seus chefes de inteligência a “voltarem para a escola”.

Avril Haines, diretora de inteligência nacional, William Burns, o diretor da CIA, e outros altos funcionários da inteligência irão testemunhar sobre o relatório na quarta e quinta-feira.

“O povo americano deve saber o máximo possível sobre as ameaças que nosso país enfrenta e o que suas agências de inteligência estão fazendo para protegê-lo”, disse Haines, cujo gabinete divulgou o relatório. /Tradução de Renato Prelorentzou. 

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