REUTERS/Henry Nicholls
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Relatório diz que não existe racismo institucional no Reino Unido, causando fortes críticas

Comissão de Disparidades Étnicas e Raça (CRE) conclui que o país é um modelo para as relações raciais, o que provoca a renúncia de assessor de Boris Johnson

Kátia Mello, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2021 | 16h17

O Reino Unido é um país racista? Segundo relatório divulgado pela Comissão de Disparidades Étnicas e Raça (CRE), na quarta-feira, 31, o país é um modelo para as relações raciais e “não há racismo institucional” no Reino Unido.

“Simplificando, não vemos mais um Reino Unido onde o sistema é deliberadamente manipulado contra as minorias étnicas”, atestou o documento de 258 páginas. Os resultados refletem o trabalho de 10 especialistas, nove dos quais são oriundos de minorias étnicas.  Embora a comissão seja independente e reconheça a natureza duradoura do racismo, há uma percepção de que o governo conservador retrocede na questão da raça. 

A criação da CRE se deu no ano passado como uma resposta do governo Boris Johnson às inúmeras manifestações do movimento Black Lives Matter no país, desencadeadas após o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos. Inflamados pelo movimento global, os britânicos passaram a cobrar do governo conservador novas políticas de combate ao racismo. 

Foram várias as cidades britânicas que aderiram aos protestos. Em Bristol, os manifestantes derrubaram a estátua de Edward Colston, traficante de escravos do século 17, como um símbolo de revisionismo histórico. Agora o relatório, condenou a ação dos manifestantes. 

Na área de educação, o relatório da comissão indica que “as crianças de comunidades étnicas minoritárias se saíram tão bem ou melhor do que os alunos brancos, porém o racismo espontâneo permaneceu, especialmente na internet”. O mesmo levantamento concluiu que a educação "transformou a sociedade britânica nos últimos 50 anos em uma que oferece oportunidades muito maiores para todos".

"É um trabalho muito interessante", embora o governo não esteja necessariamente "de acordo com absolutamente tudo o que diz", afirmou Boris Johnson nesta quinta-feira sobre o relatório.

 

Indignação.

A reação ao relatório da CRE foi imediata, provocando uma onda de críticas entre defensores da igualdade racial, que apontaram as grandes disparidades sofridas pelas minorias britânicas em questão de saúde, educação, emprego e controle policial. “É um total absurdo”, disse à BBC Kehinde Andrews, professora de Estudos Negros da Universidade de Birmingham. “Vai contra todas as evidências reais existentes”, completou. 

Após a avalanche de críticas, Samuel Kasumu, um renomado assessor do primeiro-ministro Boris Johnson se demitiu na quinta-feira (10). Kasumu deixará em maio seu cargo como assessor especial sobre sociedade civil e comunidades, como informou porta-voz de Downing Street. "Kasumu desempenhou um papel incrivelmente valioso" e "qualquer sugestão de que esta decisão (...) está relacionada ao relatório da Comissão sobre Desigualdades Raciais e Étnicas (CRED) é totalmente equivocada", acrescentou a porta-voz. O assessor de Johnson trabalhava para incentivar mais pessoas de minorias étnicas a se vacinarem contra a covid-19 e acaba de lançar uma nova campanha de conscientização a respeito, com algumas das celebridades negras mais conhecidas do país. 


O impacto desproporcional da pandemia nas minorias étnicas é um dos aspectos que foi subestimado no polêmico relatório da CRE. O texto afirma que embora o racismo ainda esteja presente no Reino Unido, é cada vez mais um fator "menos significativo" de desigualdade social, que o país não é "institucionalmente racista".

O relatório foi divulgado há cerca de um mês da polêmica entrevista de Merghan Markel ao programa de Oprah Winfrey, na Califórinia, em que ela descreve o racismo dentro do Palácio de Buckingham.“No Reino Unido há um enorme silêncio em torno da raça que, na verdade, não existe nos Estados Unidos”, afirmou, na ocasião, Priyamvada Gopal, professor de estudos pós-coloniais na Universidade de Cambridge

Racismo no Reino Unido

O termo “racismo institucional” foi cunhado por Stokely Carmichael, o organizador americano dos direitos civis, em seu livro Black Power: The Politics of Liberation in America escrito em parceria com Charles Hamilton em 1967. 

No Reino Unido, uma das instituições que sofre maiores acusações de atos racistas é a polícia. Em 1981,o juiz Lord Scarman conduziu o famoso inquérito sobre motins no bairro londrino de Brixton. O relatório de Scarman tornou-se referência ao identificar o racismo institucional no comportamento dos policiais. Em 1999, Sir William Macpherson apresentou seu relatório sobre a investigação policial do assassinato do adolescente negro Stephen Lawrence. Macpherson o racismo institucional nas palavras e ações de cada oficial e por meio dos efeitos dessas palavras e ações. Para os críticos, agora existe uma tentativa de a CRE substituir o influente Relatório Macpherson.  

Seja como for, as críticas ao documento abriram brechas para mais farpas da principal força da oposição, o Partido Trabalhista, em direção a Johnson. O parlamentar trabalhista David Lammy afirmou que os indicadores do relatório da CRE revelam a existência de um racismo estrutural nas instituições britânicas. Disse ainda que estava exausto, assim "como tantos na comunidade negra do Reino Unido". Com AFP 

 

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