Relatório do Iraque é insatisfatório, dizem EUA

A declaração de 12.000 páginas do Iraque sobre seus armamentos não dá conta de várias armas químicas e biológicas desaparecidas, e não explica tentativas de adquirir urânio e outros itens que a inteligência dos Estados Unidos acredita que estejam relacionados com o programa nuclear do presidente Saddam Hussein, disseram hoje autoridades americanas. O senador Richard Shelby, o principal republicano no Comitê de Inteligência do Senado, classificou a declaração iraquiana de uma "tapeação". "Não sei como pode ser dada qualquer credibilidade a ela", disse Shelby. O Iraque apresentou o extenso documento para tentar provar que o regime de Saddam não dispõe de armas de destruição em massa - algo em que os EUA não acreditam. A conclusão preliminar dos EUA, de que o relatório é insuficiente, prepara o terreno para uma série de decisões críticas do presidente George W. Bush, que vê, na declaração iraquiana, a última oportunidade de Saddam para evitar uma guerra, adiantaram autoridades. Entre as opções consideradas por Bush estaria a de oferecer informação da inteligência americana sobre os supostos programas de armas para os inspetores da ONU; ou ajudar o organismo mundial a provar que Saddam Hussein está mentindo, como exigido na resolução do Conselho de Segurança apoiada pelos EUA, que também criou um novo regime de inspeções no Iraque depois de um lapso de quatro anos, acrescentaram as autoridades. Bush poderia simplesmente pedir mais informações ao Iraque - um caminho que, segundo adiantaram funcionários da Casa Branca, o presidente não irá seguir. Depois de uma revisão mais profunda na declaração, o presidente pode também afirmar que Saddam está em "flagrante violação" da resolução, e que é necessária uma guerra para desarmá-lo. Este passo, apoiado pelos "falcões" da administração, provavelmente seria condenado por aliados dos EUA que querem provas de que Saddam seja uma ameaça. Mas uma alta autoridade americana afirmou à AP, na semana passada, que os EUA não estão inclinados a se engajar num prolongado debate no Conselho de Segurança, e podem ser compelidos a agir por conta própria, especialmente se houver ameaças de veto para bloquear suas ações. Especialistas de inteligência americanos estão comparando suas conclusões com as de colegas de outros países no Conselho, e uma reunião do CS está marcada para a próxima quinta-feira. Pelos termos da resolução 1441 do CS da ONU, falsas afirmações ou omissões na declaração - somadas à falta de colaboração com as inspeções - seriam "flagrante violação" das obrigações do Iraque. Até agora, os recém-admitidos inspetores da ONU não acusaram publicamente o Iraque de obstruir seus esforços. A declaração do Iraque, na maior parte requenta, antigos relatórios e contém pouca informação nova, disseram oficiais. Ela não fez nada para alterar a crença americana de que o Iraque possui armas químicas e biológicas e busca armas nucleares, acrescentaram. Mais importante do que o que Iraque colocou na declaração foi o que omitiu, uma autoridade avaliou. O relatório, sendo analisado pela CIA e outras agências, não dá conta de quantidades de agentes químicos e biológicos que desapareceram depois que os inspetores da ONU deixaram o Iraque em 1998, comentaram. Centenas de projéteis de gás mostarda, por exemplo, continuam sumidos. A declaração também não explica várias compras iraquianas que, os EUA suspeitam, estarem relacionadas com o programa nuclear de Saddam. Como a aquisição de urânio da África, assim como a compra em países ocidentais de equipamentos de alta tecnologia que poderiam ser usados num programa de enriquecimento de urânio, segundo os oficiais. O urânio enriquecido ou plutônio são os elementos usados na produção de armas nucleares. Autoridades da Casa Branca e da CIA recusaram-se a comentar essas conclusões, divulgadas pela primeira vez por The New York Times em sua edição de hoje. Mas o próprio Bush disse à ABC News que seu sentimento em relação a Saddam é que "ele é um homem que engana, nega". Os EUA e a Rússia entregaram suas conclusões iniciais na quinta-feira ao chefe dos inspetores de armas da ONU, Hans Blix, e a Mohamed El Baradei, da Agência de Internacional de Energia Atômica (Aiea). Os outros três membros permanentes do Conselho de Segurança - Grã-Bretanha, China e França - também devem apresentar suas conclusões ainda hoje.

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