Hamid Khatib/Reuters
Hamid Khatib/Reuters

Relatório do Pentágono afasta EUA de uma intervenção militar na Síria

Lista de opções para acabar com a guerra civil é apresentada ao Congresso

Mark Landler e Thom Shanke - THE NEW YORK TIMES,

23 de julho de 2013 | 19h40

O Pentágono apresentou nesta terça-feira, 23, ao Congresso sua primeira lista detalhada de opções militares para acabar com a guerra civil na Síria. O relatório sugere que uma campanha para aumentar o poderio da oposição seria um esforço imenso que custaria bilhões de dólares e com resultados contraproducentes para os EUA.

A lista de opções, contida numa carta do chefe do Estado-Maior Conjunto, general Martin Dempsey, ao presidente da Comissão de Serviços Armados do Senado, o democrata Carl Levin, constitui a primeira iniciativa dos militares de descrever uma possível intervenção na guerra iniciada há dois anos e meio.

A divulgação ocorre no momento em que a Casa Branca, que limita seu envolvimento militar ao fornecimento aos rebeldes de armas de pequeno porte, admite que Assad talvez não deva ser forçado a deixar o poder tão cedo.

As opções, que vão desde o treinamento de tropas da oposição até a realização de ataques aéreos e à criação de uma zona de exclusão de voos sobre a Síria, não são novidade. Dempsey, porém, apresentou os detalhes sobre logística e custos de cada uma delas.

Segundo o general, por exemplo, ataques de longo alcance contra alvos militares da Síria exigiriam "centenas de aviões, navios, submarinos e outros equipamentos" ao custo "de bilhões" de dólares.

Dempsey, que possui a mais alta patente militar dos EUA, escreveu a carta de três páginas atendendo ao pedido de Levin, depois que foi sabatinado, na semana passada, quando afirmou que acreditava que é provável que Assad continue no poder por mais um ano.

Naquele dia, a Casa Branca começava, pela primeira vez, a expor ao público suas possibilidades em relação a Assad. Depois de afirmar por quase dois anos que os dias de Assad estavam contados, o porta-voz Jay Carter disse: "Embora no campo de batalha tenha havido mudanças, Bashar Assad, na nossa opinião, nunca mais governará a Síria integralmente."

Essas últimas palavras representam uma mudança sutil, mas significativa do discurso da Casa Branca: uma admissão implícita de que, depois dos recentes avanços das forças do governo contra uma oposição cada vez mais caótica, agora parece que Assad tratará de se agarrar ao poder no futuro, mesmo que sobre parte da Síria dividida.

Frustração. Em entrevista, Lakhdar Brahimi, enviado especial da ONU à Síria, expressou seu desapontamento pela aprovação, no Congresso americano, do envio de armas à Síria. "Armas não contribuem para a paz", disse.

Mas, segundo Dempsey, se o presidente o ordenar, os militares estarão preparados para adotar as opções que incluem treinamento, assessoria e assistência à oposição, realização de ataques limitados com mísseis, estabelecimento de uma zona de exclusão de voos, de zonas tampão e a tomada do arsenal de armas químicas de Assad.

"Todas as opções, provavelmente, favoreceriam o limitado objetivo militar de ajudar a oposição e aumentar a pressão contra o regime", disse Dempsey. "Se entrarmos em ação, deveremos estar preparados para o que vier depois. Será difícil de evitar um envolvimento mais profundo."

A decisão de usar a força "equivale a um ato de guerra", disse o general, lembrando que, "inadvertidamente", os EUA poderiam dar mais poder aos extremistas ou desencadear o uso de armas químicas". Obama não demonstrou o menor desejo de um amplo envolvimento militar na Síria e a carta de Dempsey evidencia a relutância do presidente.

Alguns analistas disseram acreditar que a linguagem mais circunspecta do governo tem a finalidade de preparar o caminho para a realidade de uma Síria dividida no longo prazo. "Não se trata de uma mudança, mas do reconhecimento de que os objetivos da política do governo não serão alcançados durante essa presidência", disse Andrew Tabler, especialista em política síria no Washington Institute for Near East Policy. "Será um envolvimento muito longo."

Funcionários da Casa Branca negaram a mudança de posição com relação à Síria, mas os comentários de líderes civis e militares é inconfundível. Na semana passada, Dempsey sugeriu que Assad poderia durar mais do que o rei Abdullah, da Jordânia, aliado de Washington.

"Se nada mudar, se não mudarmos o nosso jogo, será que ele continuará no poder daqui a um ano?", perguntou a Dempsey o senador republicano Lindsey Graham, referindo-se a Assad. "Acho provável", respondeu o general.

 
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