Senate Television via AP
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Relatório do Senado americano aponta falhas de segurança durante invasão do Capitólio

Relatório com 127 páginas é a divulgação mais abrangente e detalhada sobre erros de inteligência, comunicação e policiamento durante a invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro

The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2021 | 19h15

WASHINGTON -  As principais agências federais de inteligência dos Estados Unidos cometeram falhas generalizadas que não permitiram impedir um ataque ao Capitólio por extremistas pró-Trump em  6 de janeiro, afirmou um relatório elaborado por duas comissões do Senado americano. Antes do ataque,  invasores armados fizeram ameaças de violência, o que incluía um plano para invadir o Capitólio e infiltrar seu sistema de túneis. A invasão foi considerada pelos senadores um ataque sem precedentes à democracia americana e a ofensiva mais significativa ao Capitólio em 200 anos.

No dia 5 de janeiro, um alerta emitido pelo FBI informava sobre pessoas que estariam viajando até Washington para uma "guerra" no Capitólio, mas o documento nunca chegou às mãos das principais autoridades responsáveis pela segurança do local no dia seguinte.

“A falha em avaliar adequadamente a ameaça de violência naquele dia contribuiu de forma significativa para a invasão do Capitólio”, disse o senador Gary Peters, democrata de Michigan e presidente da Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais. “O ataque foi planejado de forma aberta e visível a todos", afirma.

Para o Senado, o Capitólio também falhou em divulgar, de forma ampla, as informações coletadas por sua própria unidade de inteligência, em meados de dezembro, o que incluía um monitoramento de postagens e mensagens em grupos de extrema direita em aplicativos. As publicações, feitas por apoiadores de Donald Trump, discutiam sobre pressionar legisladores, até com armas, para reverter a derrota eleitoral do presidente republicano.

“'Se eles não aparecerem, entramos no Capitólio como quando o Congresso Continental se reuniu durante a independência', dizia uma publicação, em referência às reuniões de delegados das 13 colônias em um congresso informal durante a Guerra da Independência (1775-1783). “Traga armas. É agora ou nunca ”, era a mensagem em outra postagem.

O relatório de 127 páginas é fruto de mais de três meses de audiências, entrevistas e análises de documentos, e faz um retrato dos preparativos para a contagem e certificação dos votos da eleição de 3 de novembro. A conclusão é de que as autoridades não levavam a sério as ameaças de violência, e a  polícia do Capitólio não teve capacidade para responder com eficácia quando elas se materializaram.

"As falhas são óbvias”, disse a senadora Amy Klobuchar, democrata de Minnesota e presidente da Comissão de Regras e Administração. “Para mim, tudo foi resumido por um dos policiais no rádio fazendo uma pergunta tragicamente simples: ‘Alguém tem um plano?’ Infelizmente, ninguém tinha”, afirma.

Em nota, a polícia do Capitólio disse concordar que era preciso melhorar alguns pontos, incluindo a mudança na maneira como coleta e compartilha inteligência, mas insistiu que as autoridades não tinham como prever que uma manifestação pró-Trump se transformaria em um ataque em massa. 

Em contrapartida, a investigação feita pelo Senado descobriu que a polícia do Capitólio havia sido avisada semanas antes sobre os planos de invasão de grupos extremistas - como Proud Boys e Oath Keepers.

“Várias mensagens promoviam confronto com membros do Congresso e o porte de armas de fogo durante o protesto”, afirma um analista de inteligência da Polícia do Capitólio em um relatório no dia 21 de dezembro. Segundo o documento, um mapa do complexo do Capitólio também havia sido postado no blog pró-Trump. 

Apenas uma parte dos policiais foi devidamente treinada para responder a uma invasão, além de estar mal equipada. Em 6 de janeiro, os oficiais não foram autorizados a usar equipamentos de proteção ou usar armas não letais mais poderosas para repelir as multidões, porque eles não tinham treinamento para isso.

“Sejamos honestos: a Polícia do Capitólio foi colocada em uma situação impossível”, afirma Portman. “Eles não tinham as ferramentas para proteger o Capitólio”, disse.

A investigação do Senado surgiu a partir de uma colaboração entre democratas e republicanos. Dada sua natureza bipartidária, o documento não aprofunda algumas questões, visto que os republicanos se recusaram a fazer perguntas sobre a invasão - o que poderia resultar em informações pouco favoráveis sobre Trump ou membros do próprio partido, ao passo que também tentaram deixar de lado as implicações políticas da invasão para as eleições de meio de mandato de 2022.

Papel do presidente

Embora o relatório afirme que Trump continuou a dizer que a eleição foi roubada dele e promoveu a reunião "Stop the Steal ( parem com a fraude, em tradução livre)" em Washington antes da invasão, o documento não mapeia as ações ou motivações do ex-presidente, nem afirma que suas reivindicações eleitorais foram falsas ou podiam inflamar os ânimos dos seus apoiadores.

A equipe que produziu o relatório solicitou mais de 50 declarações de policiais. Foram traçados perfis dos invasores, alguns dos quais fizeram saudações nazistas e gritavam ofensas racistas. Um policial descreveu ter sido pisoteado pela multidão. Outro afirmou ainda sentir dor por causa das queimaduras que sofreu naquele dia. 

Entre as 20 recomendações sugeridas pelo relatório do Senado, estão o reforço de treinamento da polícia e a centralização da inteligência em um único escritório para melhor compartilhamento de informações. 

Ainda sim, muitas questões permanecem sem resposta. Falta descobrir a identidade dos criminosos, quem são os responsáveis pelas bombas colocadas fora das sedes dos Comitês Democrata e Republicano, e há duvida se as autoridades estão fazendo o suficiente para combater o extremismo de direita. Os senadores disseram que planejam prosseguir com a investigação.

 

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