Relatório dos EUA tem motivação política, acusam ONGs

Divulgada pelo Departamento de Estado americano, lista negra de trabalho escravo e prostituição inclui alguns aliados dos EUA, além de tradicionais opositores

Agencia Estado

15 Junho 2007 | 02h47

Os Estados Unidos incluíram nesta terça-feira, 12, alguns de seus aliados no grupo dos piores países do mundo na prevenção da venda de pessoas para exploração sexual e do trabalho, no relatório anual do Departamento de Estado sobre o tema. Apesar dos tradicionais rivais constarem na relação, organizações não-governamentais acusam os americanos de envolverem motivações políticas na avaliação. Os aliados árabes Barein, Kuweit, Omã e Catar figuram como alguns dos piores países do mundo na prevenção da venda de pessoas para exploração sexual e do trabalho. Além disso, acusaram os tradicionais opositores Cuba e Venezuela de não seguirem as medidas americanas para prevenir e erradicar o tráfico. Argélia, Guiné Equatorial e Malásia também entraram na categoria 3 - a última, relativa a países que não atendem a padrões mínimos de combate ao tráfico humano ou que não realizam esforços significativos para melhorar sua situação, assim como Irã, Mianmar, Coréia do Norte, Arábia Saudita, Sudão, Síria e Uzbequistão - além de Cuba e Venezuela. Pela lei norte-americana, esses países podem começar a sofrer sanções, como a perda de ajuda financeira norte-americana ou apoio dos EUA para empréstimos do Banco Mundial e do FMI, se não melhorarem sua situação em 90 dias. O governo Bush pode escolher não impor sanções a esses países. A secretária de Estado, Condoleezza Rice, afirmou que os EUA "não só mantêm seu compromisso de combater o tráfico de pessoas, como se esforçarão para que esta forma moderna de escravidão seja abolida, este comércio global de escravos" O relatório documenta casos de meninas sendo vendidas para a prostituição, de meninos obrigados a se tornarem soldados e de adultos e crianças forçados a trabalhar em barcos pesqueiros que passam anos no mar, o que os impede de fugir e os torna vulneráveis a doenças, fome e abusos físicos. O relatório indicou que "os EUA são um país exportador e importador de milhares de homens, mulheres e crianças traficados para a exploração sexual e para o trabalho forçado". Ao apresentar o relatório a jornalistas, o embaixador norte-americano Mark Lagon considerou "especialmente frustrante" que muitos dos recém-chegados à lista sejam países ricos do Oriente Médio, com dinheiro para combater o problema. A Arábia Saudita, também aliada dos EUA, consta na lista pelo terceiro ano seguido. Os EUA estimam que 800 mil pessoas sejam traficadas internacionalmente por ano, sendo aproximadamente 80% do sexo feminino e metade do total menores de idade. Motivação política? ONGs dizem que listas negras norte-americanas como estas parecem ter motivações políticas. Países amigos, mas com problemas graves de tráfico humano, como a Índia, não aparecem na pior categoria, enquanto países hostis, como Síria, Coréia do Norte, Cuba e Venezuela, são freqüentadores habituais. Em Cuba, segundo o Departamento de Estado, o tráfico de pessoas afeta principalmente mulheres e menores de idade que engrossam as estatísticas de turismo sexual na ilha. A Venezuela, segundo o relatório, "é fonte, passagem e destino de mulheres e crianças traficados com o propósito de exploração sexual e trabalho forçado". "O tráfico na Venezuela envolve mulheres e crianças de Brasil, Colômbia, Peru, Equador, República Dominicana e China (...) Há tráfico de venezuelanas dentro do país, além de outras que vão à Europa Ocidental, em particular à Espanha e à Holanda, e a países da América Latina, como o México e a República Dominicana, para o turismo sexual", acrescentou o relatório. A Colômbia "é um dos principais países do continente americano de onde saem mulheres e meninas para o tráfico sexual na América Latina, no Caribe, na Europa Ocidental, no Leste Asiático, no Oriente Médio e nos Estados Unidos", aponta o documento. A pesquisa informa que dentro da Colômbia há homens submetidos ao trabalho forçado, e tanto as guerrilhas de esquerda quanto os paramilitares de direita forçaram milhares de crianças a servir como combatentes. Apesar disso, o Departamento de Estado posiciona a Colômbia pelo sétimo ano consecutivo como o único país latino-americano a acatar as solicitações da lei americana, porque o governo "fez fortes progressos na identificação e penalização de atos criminosos". O relatório inclui três outras categorias: a 1, para países que atendem aos padrões mínimos exigidos pelos EUA; a 2 (na qual está o Brasil), para os que fazem esforços significativos; e a "Lista de Observação Especial" da segunda categoria, em que aparecem México e Argentina, entre outros. O deputado republicano Chris Smith, um dos autores da lei que exige o relatório anual, disse que há países demais - 32 neste ano - na lista de "Observação Especial" ao invés de constarem já na terceira categoria. "Acreditamos que isso esteja recebendo um mau uso para abrigar certos países, como a Índia, cujo histórico claramente indica que deveria estar na categoria 3", disse ele, que cogita apresentar uma emenda que impeça a presença de um país por três anos consecutivos da lista de observação. Lagon negou qualquer motivação política e lembrou que o Zimbábue, com más relações com os EUA, saiu da 3ª categoria, enquanto Geórgia, Hungria e Eslovênia ascenderam à 1ª. No relatório do ano passado, os EUA admitem pela primeira vez terem contratado empresas no Iraque que, soube-se depois, cometiam abusos contra trabalhadores contratados no exterior. O relatório critica o governo iraquiano por não punir os casos de tráfico humano, proteger as vítimas ou tomar medidas para prevenir abusos. O Iraque não consta nas listas por causa da turbulenta situação do governo e do país como um todo.

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