David Burnett/The New York Times
David Burnett/The New York Times

Relatório expõe brutalidade e ineficiência de torturas realizadas pela CIA

Divulgação de documento foi criticada por integrantes do Partido Republicano; iniciativa que demorou cinco anos para ser concluída

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S. Paulo

09 de dezembro de 2014 | 15h09

WASHINGTON - A tortura de prisioneiros pela CIA no período posterior aos atentados de 11 de setembro de 2011 foi mais brutal do que a agência admitiu a órgãos de supervisão do governo e não produziu informações relevantes para o combate ao terrorismo, afirma relatório do Senado americano divulgado na manhã de hoje.

Resultado de cinco anos de análise de milhões de páginas de documentos e entrevistas sobre a ação da instituição entre 2001 e o início de 2009, o estudo é a mais ampla investigação já produzida nos EUA sobre a prática da tortura no governo de George W. Bush. Sua divulgação foi criticada por integrantes do Partido Republicano, para os quais a atuação da CIA produziu dados relevantes na guerra ao terror.

A presidente do Comitê de Inteligência do Senado, Dianne Feinstein, resistiu a pressões do próprio governo democrata para adiar a divulgação do relatório. Na sexta-feira, o secretário de Estado, John Kerry, telefonou para a senadora e pediu que ela considerasse a situação global para definir o melhor momento para revelar o relatório. A administração teme que seu teor seja usado como material de propaganda por grupos extremistas e coloque em risco a vida de reféns americanos em poder do Estado Islâmico.

Feinstein também enfrentou a resistência da poderosa comunidade de inteligência americana. Durante a investigação, computadores do Comitê de Inteligência do Senado foram alvo de hackers que operavam a partir da CIA.

A tortura era praticada em prisões secretas localizadas fora dos Estados Unidos. “Começando com o primeiro detento da CIA, Abu Zubaydah, e continuando com vários outros, a CIA aplicou suas técnicas de interrogatório forçado com repetição significativa por dias ou semanas de uma vez. Técnicas de interrogação como tapas e “emparedamento” (atirar detentos contra uma parede) eram usadas de maneira combinada, com frequência em associação com privação do sono e nudez”, diz trecho do relatório divulgado hoje.

“A privação do sono envolvia a manutenção dos detentos acordados por até 180 horas, normalmente em pé ou em posições estressantes, algumas vezes com suas mãos presas sobre suas cabeças. Pelo menos cinco detentos experimentaram alucinações perturbadoras durante a privação do sono e com pelo menos dois deles, a CIA continuou com a privação do sono mesmo assim”, sustenta o relatório.

O documento é um resumo de quase 500 páginas do estudo integral, que alcança 6.700 páginas e que continuará sigiloso. O texto divulgado foi editado para omissão de nomes que possam comprometer a segurança nacional americana.

A simulação de afogamento é uma das mais cruéis práticas detalhadas no relatório, que aponta danos físicos como convulsões e vômitos. “Abu Zubaydah, por exemplo, ficou ‘completamente inconsciente, com bolhas saindo de sua boca aberta.”

Feinstein disse esperar que a divulgação do estudo faça com que o governo americano “nunca volte a usar detenções secretas por tempo indeterminado ou praticar interrogações coercitivas”. A senadora lembrou que antes dos atentados de 11 de setembro, a própria CIA avaliava que a tortura não produzia inteligência valiosa, produzindo “falsas respostas”.

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