Sean Gallup / EFE
Sean Gallup / EFE

Relatório indica atuação neonazista na polícia alemã

Governo confirma presença de extremistas de direita nas forças de segurança, mas ministro diz que não é um ‘problema estrutural’

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2020 | 03h30

BERLIM - O governo alemão revelou ontem um relatório sem precedentes sobre a extrema direita nas forças de segurança. Os escândalos se multiplicaram nos últimos meses, com a descoberta de vários grupos de policiais trocando comentários racistas. No Exército, um comando de elite infiltrado por neonazistas foi parcialmente dissolvido no meio do ano.

“Cada caso comprovado é uma vergonha para todas as forças de segurança”, declarou o ministro do Interior, Horst Seehofer, em uma entrevista coletiva.

Os serviços de inteligência contabilizam, de acordo com dados divulgados ontem, pelo menos 377 casos de extremistas de direita nas forças de segurança, incluindo 319 na polícia, uma minoria entre os 300 mil policiais. Os dados cobrem o período de janeiro de 2017 a março de 2020. Não existe “nenhuma rede de extrema direita dentro da Polícia Federal”, ressaltou seu responsável, Dieter Romann.

Os números foram bons para o ministro, acusado na Alemanha de não querer esclarecer totalmente as suspeitas. Os dados corroboram com a sua tese de que as ideias extremistas não são um “problema estrutural” dentro das forças de ordem.

Embora tenha apresentado o relatório elaborado pelos serviços de inteligência, Seehofer ainda reluta quanto a ordenar investigações mais profundas, para evitar envergonhar o conjunto de “99% de policiais que respeitam” a Constituição. No entanto, autoridades regionais disseram que poderão conduzir as próprias investigações para acabar com as dúvidas.

A relação entre a extrema direita e parte da polícia do país é algo comprovado no país. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) – populista de extrema-direita – é o grupo no Parlamento com mais policiais em suas fileiras: 5 de 89.

Nos últimos meses, a pressão para esclarecer o tamanho real desses grupos aumentou e veio também do Partido Social-Democrata, parceiro dos conservadores na coalizão da chanceler alemã, Angela Merkel. O próprio chefe de Estado, Frank-Walter Steinmeier, uma autoridade moral na Alemanha, pediu no final de setembro que se lutasse “com mais determinação” contra as redes de extrema direita no país.

Casos recentes

O terrorismo de extrema direita é considerado uma das principais ameaças à segurança do país e vários casos recentes, que as investigações do governo não incluíram na contagem, geraram indignação na Alemanha.

Na Renânia do Norte-Vestfália, a região mais populosa da Alemanha, pelo menos 30 policiais, atualmente suspensos, trocaram, por meio do WhatsApp, fotos de Adolf Hitler, imagens de suásticas, bandeiras do Terceiro Reich e uma montagem em que um refugiado estava em uma câmara de gás em um campo de concentração. Outro grupo semelhante foi desmantelado no final de setembro em Berlim.

Em julho, os investigadores anunciaram a prisão de um ex-policial e da mulher dele, suspeitos de enviar e-mails ameaçadores a políticos e figuras públicas em toda Alemanha.

Suas mensagens eram assinadas como “NSU 2.0”, uma referência ao pequeno grupo neonazista alemão, cujos membros cometeram dez assassinatos racistas durante os anos 2000 e se beneficiaram da passividade da polícia.

O verão (entre junho e setembro no país) também foi marcado pela renúncia de um chefe regional da polícia alemã por causa de supostas ligações entre seus serviços e a extrema direita.

O Exército também não está livre de ligações com os radicais. O KSK, um comando de elite da tropa, foi parcialmente dissolvido antes de junho. Ao todo, 20 de seus membros eram suspeitos de pertencer ao movimento neonazista, proporção cinco vezes maior do que no Bundeswehr (Exército) como um todo, segundo uma investigação patrocinada pelo Serviço de Contrainteligência alemão na ocasião. / AFP

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