Relatório indica falhas da missão da ONU no Haiti

Segundo auditoria, a Minustah comprou centenas de carros novos enquanto havia dezenas em estoque

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2015 | 02h00

Uma auditoria realizada pela ONU revela que a Missão de Paz da organização no Haiti (Minustah) gastou milhões de dólares de forma desnecessária para seus funcionários atuarem no país mais pobre da região. Foram comprados centenas de carros que não eram necessários, pois outros se acumulavam nos estoques. Perdas com peças e alugueis para fins de semana e feriados foram milionárias.

Auditoria foi concluída no fim de dezembro e cobriu o período entre 2011 e março de 2014, concentrando-se no segmento de transporte das tropas e da missão, no qual trabalhavam 191 pessoas. No total, a frota da Minustah chegava a 1,2 mil carros até 31 de março, com um orçamento anual que variou entre US$ 4,4 milhões e US$ 5,3 milhões.

O Brasil lidera a ação militar no Haiti, mas a atual chefe geral da missão é Sandra Honoré, de Trinidad e Tobago. A ONU afirmou ao Estado que os responsáveis pela autorização de compra e gastos neste caso era a Seção de Transporte da Minustah, com 191 funcionários e sob o comando de Sandra. Foi a ela que, em 24 de novembro de 2014, uma primeira versão do texto da auditoria foi enviado para que a missão pudesse comentar.

Uma das principais conclusões da auditoria refere-se a gastos para compra de veículos. Em 2011 e 2013, foi estipulado que automóveis em excesso fossem retirados das ruas. "A Seção de Transporte (da Minustah) não seguiu de forma adequada o problema e em setembro de 2013 a missão contava com 835 veículos, 150 além do necessário." Apenas no fim do ano passado, 74 carros excedentes foram devolvidos.

"A Minustah comprou 356 veículos, que custaram US$ 9,7 milhões, usando o restante dos fundos do orçamento pós-terremoto", indicou o relatório. Esses carros foram entregues em janeiro de 2012. Mas a auditoria é clara: "A Minustah não precisava desse número de carros, já que 183 deles estava em estoques em 31 de dezembro de 2012".

A ONU admite que 40 deles foram usados para substituir carros mais velhos, enquanto 100 outros foram transferidos para a Missão de Paz no Mali. Mas, em julho de 2014, "ainda havia 43 carros nos estoques".

Para os auditores, "a compra de carros em excesso foi resultado de avaliação inadequada das necessidades atuais e futuras". "Os 183 carros que continuaram em estoque depois de um ano da entrega foram comprados a US$ 5 milhões e se depreciaram nos estoques para cerca de US$ 3,8 milhões sem serem usados." Segundo eles, o custo de mandar cem carros para o Haiti foi de US$ 223 mil e o transporte ao Mali mais US$ 495 mil. "Os gastos poderiam ter sido evitados", indicou a auditoria.

Descontrole. A auditoria mostrou ainda que o problema não se referia apenas às compras. Num dos casos descobertos, a bateria de um carro foi trocada 9 vezes em 18 meses. No entanto, 1,4 mil serviços mecânicos não foram registrados na central de custos da ONU. Os estoques ainda revelam falta de centenas de peças e um excedente desnecessário em 500 outros itens.

Outra irregularidade surgiu no aluguel de carros pela Minustah em Santo Domingo, capital da vizinha República Dominicana. O prestador de serviço cobrou da Minustah por carros e serviços de motoristas nos sábados, domingos e feriados, quando eles não eram necessários e não estavam sendo usados pela Minustah. Nesses casos, foram cobrados US$ 181 mil a mais.

Ao responder às investigações, a Minustah indicou que aceita se desfazer dos carros em excesso. Sobre os valores pagos para o aluguel de carros e de motoristas nos fins de semana e feriado, a Minustah "declara que avaliará os serviços prestados pela empresa para determinar o valor cobrado incorretamente e tomar medidas".

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