Relatório sobre Irã amplia cisão entre potências

China, Rússia e países emergentes questionam parcialidade da agência atômica da ONU, após documento que acusa iranianos de buscar a bomba

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h06

O relatório da ONU sobre o programa atômico do Irã, publicado na quinta-feira, revelou ao público algo além do suposto avanço de Teerã rumo à bomba. Um efeito indireto do documento foi expor a crescente divisão entre potências quanto à isenção e ao uso político da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Novamente, EUA e europeus estão de um lado; China, Rússia e emergentes, de outro.

A organização de controle nuclear conseguiu, pela primeira vez, sistematizar informações obtidas ao longo de anos e mostrar que o Irã de fato busca a bomba. Pelo menos é essa a versão de países europeus e dos EUA.

Para China e Rússia, além de emergentes como o Brasil, o relatório da AIEA não trouxe evidência concreta - ou nova - capaz de provar que o programa iraniano está se "militarizando". As acusações seriam, antes, resultado da pressão dos grandes do Ocidente, além de um reflexo do direcionamento dado à agência pelo japonês Yukiya Amano, sucessor do egípcio Mohamad ElBaradei no comando da AIEA.

Nos bastidores, autoridades de Moscou afirmaram que o documento tinha "o objetivo prévio de declarar o veredicto de culpado ao Irã". Para Pequim, o relatório não traz novidades e, portanto, não há sentido em discutir mais sanções na ONU. A última punição do Conselho de Segurança aos iranianos foi adotada há 17 meses - com voto favorável da Rússia e da China.

"Esse relatório (da AIEA sobre o Irã) está longe de ser consensual. E ele é temerário: reduz ainda mais a disposição dos iranianos para o diálogo e amplia as chances de Israel recorrer a um ataque, o que seria especialmente terrível", diz um funcionário do governo brasileiro.

A imprensa iraniana explorou à exaustão o fato de o secretário-geral da AIEA ter viajado a Washington menos de duas semanas antes da divulgação do relatório. Segundo um despacho da diplomacia americana divulgado pelo WikiLeaks, Amano teria afirmado ao representante dos EUA na AIEA que "estava firmemente no campo dos EUA", embora fosse obrigado a "fazer concessões ao G-77 (grupo de países em desenvolvimento)".

Mesmo especialistas na questão nuclear divergem sobre a importância das conclusões do relatório. Em entrevista ao Estado na quinta-feira, o secretário-geral da AIEA de 1981 a 1997, Hans Blix, afirmou que o documento traz "muitas informações que não são novas, mas que, juntas, mostram um cenário diferente".

Para Ali Vaez, especialista no programa iraniano da Federação de Cientistas Americanos (FAS, na sigla em inglês), o relatório decepcionou. "Foi como quando todo mundo esperava ansiosamente o lançamento do iPhone 5, mas veio o decepcionante iPhone 4S", brinca. "Não há no documento quase nada que a comunidade de inteligência e os analistas da área não soubessem. O que a agência fez foi tornar público mais detalhes sobre a possível dimensão militar do programa iraniano. Mas a grande maioria dessas informações foi coletada em 2008."

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