Relatório sobre voo AF 447 'decepciona' familiares de vítimas

Parentes criticam autoridades francesas por destaque dado aos erros da tripulação na catástrofe.

Daniela Fernandes, BBC

29 de julho de 2011 | 14h27

Os familiares das vítimas do voo AF 447 da Air France, que caiu no Atlântico em 2009, se dizem decepcionados com o rumo das investigações e criticam o relatório das autoridades francesas, divulgado nesta sexta-feira, por dar destaque aos erros da tripulação na catástrofe que matou 228 pessoas.

"Estamos decepcionados e chocados pela falta de informação sobre as falhas nas sondas de velocidade do avião, que é o ponto de partida do acidente", disse o diretor da associação francesa Ajuda Mútua e Solidariedade AF 447, Robert Soulas, que esteve presente na apresentação do relatório.

"Não tivemos elementos novos nesse novo documento. Nós não compreendemos como depois das primeiras análises dos dados é possível acusar os pilotos tão rapidamente. Isso mostra o peso político do caso", diz Soulas.

Para os familiares das vítimas, o fato de o Estado francês ter participação na Air France e na Airbus poderia limitar a transparência das investigações.

Neste terceiro relatório intermediário sobre o acidente, os investigadores do Escritório de Investigações e Análises da França (BEA, sigla em francês) explicaram as circunstâncias exatas dos últimos minutos do voo e apontaram erros cometidos pelos pilotos.

Segundo o BEA, a situação poderia ter sido revertida após o congelamento das sondas de velocidade (conhecidas como tubos pitot), que levaram ao desligamento do piloto automático.

"O acidente poderia ter sido evitado se os pilotos tivessem tomado as medidas adequadas. O mais difícil será entender as ações dos pilotos", diz Jean-Paul Troadec, diretor do BEA.

'Desconfiança'

A associação alemã de familiares das vítimas HIOP expressou "desconfiança sobre os objetivos das investigações na elucidação da catástrofe".

"Percebemos que a opinião pública vem sendo preparada para aceitar que as falhas dos pilotos causaram o acidente", diz Barbara Crolow, da HIOP.

Segundo Crolow, os investigadores não estariam interessados nas causas reais do acidente. "O BEA não torna os dados públicos por razões econômicas, que interessam a Airbus", diz.

"Até o dia de hoje, foram negadas aos parentes das vítimas informações consistentes já disponíveis de meados de maio (quando as caixas-pretas foram trazidas à França)", diz a representante das famílias alemãs.

"No segundo relatório (divulgado em dezembro de 2009), os aspectos técnicos do acidente estavam mais presentes. Agora os investigadores estão desviando a questão do problema técnico para um problema humano", disse à BBC Brasil Danielle Lévy, da associação francesa.

Ela se diz "chocada" com o fato de que a Airbus estaria "descarregando sobre os pilotos a responsabilidade do problema dos sensores de velocidade do avião".

O BEA informou nesta sexta-feira que irá criar um grupo de especialistas que irão analisar as ações dos pilotos para tentar descobrir as razões dos procedimentos de voo adotados.

O AF 447, que partiu do Rio de Janeiro com destino a Paris, caiu no Oceano Atlântico no dia 31 de maio de 2009, matando todas as 228 pessoas a bordo.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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