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Relatórios da CIA retratam obsessão dos EUA com Fidel

Documentos tornados públicos mesclam admiração, desprezo e medo

Wilson Tosta, RIO, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

O fim dos 49 anos de Fidel Castro à frente do governo de Cuba, anunciado oficialmente na terça-feira, será também o encerramento da provavelmente mais longa obsessão da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) por um chefe de Estado estrangeiro. A preocupação ficou marcada em documentos da instituição, antes secretos, mas agora disponíveis na internet, mostrando que, em meio século, agentes americanos tiveram no líder da Revolução Cubana uma de suas prioridades centrais de espionagem. Nos relatórios, percebe-se um misto de admiração por Fidel, desprezo pelo regime e medo do potencial de "contaminação revolucionária" da América Latina por suas idéias.A obsessão começou antes da entrada dos revolucionários na capital, Havana, em 1º de janeiro de 1959. "O movimento rebelde de Castro está na mais forte posição que já teve", alertou a CIA em 24 de setembro de 1958. "O governo está prosseguindo com seus planos para as eleições de 3 de novembro, a despeito da apatia pública e da atividade rebelde." Pouco depois, em 29 de outubro, agentes advertiram para a intensificação das atividades revolucionárias e para o aviso de Fidel aos eleitores para que não saíssem de casa no dia da votação. Ironicamente, a CIA afirmava que sua organização não era dominantemente esquerdista. "O Movimento 26 de Julho abriga alguns comunistas e esquerdistas, mas eles não são a influência dominante no movimento."Três meses após a chegada de Fidel ao governo, a opinião da agência a seu respeito já mudara radicalmente. Em memorando de 23 de março de 1959, o diretor-assistente para Inteligência, Huntington D. Sheldon, afirmou: "Após três meses, o governo revolucionário de Cuba assumiu a aparência de uma ditadura emergente sob o primeiro-ministro Fidel Castro , embora não apresente maior potencial para a democracia que o regime de (Fulgencio)Batista. Sinais de descontentamento começam a aparecer, particularmente entre grupos empresariais, comerciais e políticos."A preocupação agravou-se nos meses seguintes. "Na tentativa de construir uma máquina econômica autoritária, com apoio de massa, Castro está se voltando mais e mais para assessores de orientação comunista e se beneficiando de tiradas demagógicas contra os EUA", segundo relatório de 10 de dezembro de 1959. O mesmo documento aponta que o Partido Socialista Popular - antigo nome do Partido Comunista - se beneficiava da ação de alguns simpatizantes, "como o chefe das Forças Armadas, Raúl Castro, o assessor para economia e relações exteriores, Ernesto Che Guevara, e o chefe da reforma agrária, Antonio Nunez Jimenez". Em 28 de janeiro de 1960 outro relatório alertou que "o governo de Castro continuou sua pressão sobre interesses comerciais americanos em Cuba e seus ataques verbais contra funcionários e políticas dos EUA". Para a CIA, Fidel crescentemente usava Washington como bode expiatório. "Castro, num pronunciamento em 22 de abril, descreveu a política dos EUA para Cuba como ?fascista, ao feitio de Goebbels e uma traição aos princípios pelos quais milhares morreram na última guerra contra o fascismo?."Depois da fracassada tentativa de desembarque de exilados cubanos na Baía dos Porcos, preparada pela CIA, em 1961, e com o socialismo já oficializado na ilha, a agência chegou a avaliar a possibilidade de negociar uma "distensão" com o presidente cubano. Essa era uma das ações previstas no documento "Espectro de caminhos de ação com respeito a Cuba", de 21 de fevereiro de 1964, no qual a CIA agrupou as possibilidades de ação dos EUA no país em dois grupos: "Poder viver com Castro" e "Não poder viver com Castro". A lista de preocupações da CIA com Fidel ia da presença de assessores militares soviéticos ao desempenho econômico cubano. Isso ficou claro em 27 de junho de 1968, no documento "Cuba: Os Problemas de Castro e as Perspectivas Para os Próximos Um ou Dois Anos": "Mesmo que as condições econômicas se deteriorem mais adiante, Castro ainda terá as vantagens do apelo carismático, habilidade política e, em último caso, um formidável aparato militar e de segurança." Foi profético: Fidel só deixou o poder 49 anos depois.

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