Adam Dean / The New York Times
Adam Dean / The New York Times

Relatos do século 21: tortura e correntes, a escravidão em Mianmar

Minoria relata à ONU rotina de trabalhos forçados, execuções e perseguição

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2018 | 05h00

GENEBRA - Atados com correntes pelo tornozelo durante a noite para não fugir e obrigados a trabalhar sem descanso ou comida durante horas. Tratados como animais de carga e executados se caíssem de fadiga. Em pleno século 21, essa era a realidade de milhares de pessoas mantidas como escravas pelos militares no norte de Mianmar.

Os relatos de vítimas de trabalhos forçados fazem parte das centenas de páginas que compõem as investigações da ONU sobre os crimes cometidos no país. A apuração foi feita ao longo de 15 meses e entrevistou 900 vítimas. Imagens de satélite foram usadas para concluir que 400 vilarejos foram apagados do mapa. A investigação serviu de base para o inquérito que chega agora ao Tribunal Penal Internacional

Os documentos que o Estado obteve com exclusividade revelam que a minoria rohingya foi alvo de uma forma sistemática de escravidão. 

As vítimas eram forçadas a cavar trincheiras para os militares, preparar acampamentos, construir estradas, carregar pedras, cozinhar e servir como escravas sexuais. Quem tentava escapar era fuzilado. “Se corrêssemos, levávamos um tiro”, contou um dos entrevistados pela comissão, que manteve os nomes sob sigilo. 

“Os soldados rotineiramente chegavam a vilarejos e levavam as pessoas ao trabalho forçado, por vezes por mais de semanas”, apontou o relatório. “Em muitas ocasiões, os militares chegavam a um vilarejo, prendiam as pessoas e as enviavam para os campos de trabalho.” Muitos eram usados como mulas de carga. 

A operação era organizada. Os soldados informavam ao líder local quantas pessoas precisavam e as famílias eram obrigadas a fornecer seus filhos. Aqueles que se recusavam eram mortos ou torturados para servir de exemplo. O mesmo processo poderia ocorrer com o mesmo vilarejo por três ou quatro vezes por ano para períodos de trabalho que poderiam durar meses. Uma das vítimas contou aos investigadores como teve de carregar granadas por um trajeto que durou oito dias. 

Outra contou como ocorria o recrutamento. “Um dia, voltando para meu vilarejo, soldados apareceram e nos agarraram. Eles nos bateram e disseram que deveríamos ir com eles para carregar coisas. Fomos levados às montanhas, onde trabalhamos por oito dias”, disse. 

Muitos dos escravos eram alvos de tortura. “Quando os trabalhadores reduziam o ritmo, eram espancados”, explicou. Enquanto os soldados recebiam três refeições por dia, os escravos praticamente não comiam. 

A humilhação era uma característica permanente. Uma testemunha contou como uma vítima foi levada para trabalhar no Estado de Shan, em 15 de novembro de 2014. “Andamos uma noite inteira. Na manhã seguinte, paramos para tomar café, ainda que eu continuasse amarrada. Depois de comer, os soldados colocaram as sobras da comida num prato e perguntaram se tínhamos fome. Eles cuspiram na comida, colocaram uma arma na nossa cabeça e disseram: se não comerem, morrem”, contou. 

“Mais tarde, já no caminho, paramos perto de um riacho e os soldados nos fizeram comer água com barro. Nos disseram que éramos rebeldes, não humanos, e deveríamos fazer como os animais.”

A investigação destaca o papel das mulheres nos acampamentos militares. Durante o dia, elas eram obrigadas a cozinhar e limpar. À noite, eram feitas de escravas sexuais. “Centenas e possivelmente milhares de mulheres e meninas foram estupradas”, alertou a ONU. Depois dos ataques, várias tiveram seus seios arrancados e suas vaginas mutiladas. 

Segundo a investigação, 99% das sobreviventes contaram que os estupros eram realizados por mais de um soldado. Num dos casos, uma garota de 7 anos relatou como dez oficiais a estupraram. “Fui espancada com cintos e facas. Meus pais foram atacados e queimados vivos”, disse outra testemunha. “Então, fui levada para fora de casa e estuprada”, contou.

Uma das sobreviventes contou aos investigadores que, em 2012, doze soldados entraram em sua casa em Myitkyina e a levaram por sete meses para trabalhar. Ela diz ter sido estuprada também por um dos comandantes. Em outra ocasião, os soldados a obrigaram a tomar um “suco” que a deixou sem consciência. “Ela acordou sem calcinha e ao lado de um soldado, com dores nas costas, ânus e vagina”, apontou o relatório. 

Mianmar é palco de uma grave crise humanitária. Os rohingyas são uma minoria étnica e muçulmana, com língua própria, marginalizada e sem cidadania birmanesa. O estopim da atual crise ocorreu em agosto de 2017, quando um grupo armado rohingya atacou diferentes postos militares. A retaliação do Exército levou à morte de 25 mil rohingyas. Mais de 750 mil fugiram de Mianmar. 

Fuga

De acordo com as investigações, muitas mulheres só tinham uma opção para evitar a escravidão: migrar. Uma das testemunhas relatou como temia que, depois de empurrar um soldado para evitar que ele a estuprasse, que ele voltasse ao vilarejo para assassinar sua família. “Eu não podia mais ficar lá e decidi sair. Nunca vou esquecer daquilo, e todas as vezes que a noite começa a chegar, me lembro daquela situação e o medo toma meu corpo”, disse.

“Aqueles que conseguiram escapar passaram a viver com um medo permanente de serem pegos. Vítimas tinham de se esconder, deixar suas casas e fugir do país”, disse a investigação. De acordo com a ONU, o “trabalho forçado tem um impacto significativo nas condições econômicas das vítimas”. “A maioria delas vivia em áreas rurais pobres. Ao trabalhar de forma forçada, essas pessoas não tinham como ter uma renda para sustentar sua família e essa foi uma das razões para que muitos deixassem o país”, completou.

Muitos foram surpreendidos pela vida fora de Mianmar. “Fomos submetidos a isso por toda nossa vida”, disse uma das testemunhas, um garoto de 13 anos e que apenas se deu conta que aquilo não era uma vida normal quando conseguiu migrar.

Governo nega crimes e critica relatório ‘parcial’

Kyaw Moe Tun, representante de Mianmar na ONU, rejeitou o relatório da entidade, alegando que a investigação não era “imparcial, justa ou equilibrada”. Em um documento enviado ao Estado, o governo de Mianmar explica sua posição. Para eles, o inquérito “tentou justificar e minimizar os atos terroristas” cometidos pelos grupos rebeldes. 

“O relatório não mencionou as causas históricas dos problemas, como os movimentos separatistas e o sofrimento da população nativa.” Quanto aos depoimentos, o documento “traz informações com base em relatos emocionais de pessoas deslocadas”. “Portanto, o governo de Mianmar tem sérias dúvidas sobre a objetividade, imparcialidade e sinceridade do relatório”, declarou. 

Para o governo, a violência de 2016 e 2017 ocorreu em razão de incidentes “terroristas” e garante que as autoridades locais criaram mecanismos de investigações independentes para avaliar as alegações.

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