Atul Loke/NYT
Atul Loke/NYT

Religião, futebol e música ligam Goa a Portugal e Brasil

Quase 60 anos após a saída dos colonizadores, elite intelectual do menor Estado da Índia luta para manter a herança lusitana

Paulo Beraldo, enviado especial a Nova Délhi

23 de fevereiro de 2020 | 07h00

NOVA DÉLHI - Cidade de Vasco da Gama, mirante Dona Paula e ilha de Chorão. Poderia ser no Brasil, em Portugal ou Angola. Mas é no sudeste da Índia, onde os portugueses chegaram pela primeira vez em 1510 e ficaram até 1961. Quase 60 anos depois, a população luta para manter viva a herança lusitana em Goa, o menor Estado indiano: na comida, na música, na arquitetura e ensinando português para os jovens. 

O idioma nunca foi o mais falado pela população, mas ainda é estudado e valorizado – especialmente pela elite intelectual do Estado de 1,5 milhão de habitantes. Hoje, são as pessoas acima de 50 anos que ainda mantém viva a língua portuguesa. No cotidiano, são muitas as referências, incluindo núcleo de torcedores do Sporting e do Benfica – clubes mais populares de Lisboa. 

“A cultura goesa está cheia de influência portuguesa: da arquitetura à culinária, a língua, os costumes”, explica Inês Figueira, diretora da Fundação Oriente, instituição que fomenta as origens portuguesas. “Não é possível falar em cultura goesa sem falar numa geografia maior, a da língua portuguesa”, afirma.

Goa tem 1,5 mil alunos de português – 1,2 mil nas escolas públicas e 300 em escolas de línguas. O ensino foi reintroduzido em 1982 e vem crescendo pouco a pouco. Hoje, a Fundação Oriente apoia 24 escolas locais. “O interesse pelo português tem crescido”, diz Inês. A Universidade de Goa também tem um departamento de estudos lusófonos. 

O idioma local, o konkani, tem cerca de 2 mil palavras parecidas com o português. “Baldi”, “chavi” e “cadeir” são alguns exemplos. Mas o “susegad”, para definir o jeito “sossegado” dos habitantes da região, é um dos mais lembrados. Esse modo de viver, as praias, a cultura típica e as festas atraem 6 milhões de turistas por ano. A maioria é de indianos. A região fica a 500 quilômetros do centro financeiro indiano, Mumbai, e de Bangalore, uma importante metrópole do sul do país. 

Sônia Shirsat é reconhecida como a cantora mais importante de fado em Goa e concorda com o papel da música para estimular a cultura goesa. “As novas gerações aprendem e vão procurar as raízes do fado. Estamos trabalhando para resgatar e assegurá-lo para o futuro. Ele tem um papel muito importante em manter essa conexão entre Goa e Portugal”, diz.

Um dos principais pontos de encontro para se ouvir o idioma é na missa de domingo da Igreja da Imaculada Conceição, a principal da cidade de Panjim. Ela foi construída em 1541 e é um marco arquitetônico. Goa também é um ponto de turismo religioso para os cristãos da Índia, país de maioria hinduísta. Há cerca de 27 milhões de cristãos no país – mais do que a população da Austrália. 

Mas não é só com Portugal que Goa guarda semelhanças. O clima e as características tropicais facilitaram a troca de espécies de plantas com o Brasil na época da colonização. “O cajueiro, a goiabeira e o abacaxi foram trazidos do Brasil e introduzidos na Índia em Goa. E de Goa, a mangueira e a jaqueira foram introduzidas no Brasil”, explica Aurobindo Xavier, presidente da Sociedade Lusófona de Goa e do Centro Cultural Brasileiro em Goa. 

Morador de Nova Délhi, o barman Tobias Carvalho deixa claro em seu nome de qual região da Índia vem. No Estado, são comuns sobrenomes como Fernandes, Nogueira, Duarte, Souza, Mascarenhas. Apesar de trabalhar em um bar da capital, ele ainda tem casa, família e amigos em Goa. “A cultura portuguesa é surpreendentemente presente, está em todo lugar, as pessoas mais velhas ainda falam, meus avós falavam. As casas têm aquele modelo”, conta. 

O futebol também conecta os brasileiros com a região. Zico treinou por três temporadas o FC Goa, de 2014 a 2016. Era uma nova liga criada pelos indianos para popularizar o futebol em um país que ama o críquete. Até hoje o craque guarda com carinho o período. “A maioria dos sobrenomes dos jogadores eram todos portugueses, alguns até entendiam alguma coisa”, disse Zico ao Estado. “Mas o pessoal acima de 60 anos, esses quase todos falavam em português com a gente. Tem mesmo uma comunidade muito importante lá”, conta.

3 PERGUNTAS PARA...

Aurobindo Xavier, presidente da Sociedade Lusófona de Goa

Na sua avaliação, quais os principais legados - ainda visíveis - dos mais de 400 anos de colonização portuguesa em Goa?

Numa colonização há legados visíveis mas mais importantes são os invisíveis. Temos um verdadeiro mar de igrejas, capelas, capelinhas e cruzes seculares que abundam principalmente nas regiões que já no século XVI foram conquistadas por portugueses. O núcleo dessas construções religiosas encontra-se em Velha Goa, que foi a capital do império português no Oriente.

Também temos casas goesas, geralmente de habitantes católicos, umas mais senhoriais, outras mais modestas, com uma típica arquitetura chamada indo-portuguesa - mescla de elementos de arquitetura portuguesa com a arquitetura originária hindu. Por fim, temos construções de natureza militar como fortalezas construídas e algumas pontes e estruturas de natureza agrícola.

O senhor pode detalhar mais sobre o legado invisível? 

O mais importante é o legado invisível que resultou da nossa convivência secular com os portugueses. Em primeiro lugar, o legado religioso católico que contribuiu para que Goa fosse um polo de missionização, que irradiou durante séculos por toda a Ásia e agora faz com que tenhamos os restos mortais de São Francisco Xavier, jesuíta espanhol conhecido como o “Apóstolo do Oriente”, e São José Vaz, goês conhecido como o Apóstolo do Sri Lanka, declarado Santo pelo Papa Francisco em 2015.

Temos ainda nossa identidade goesa, uma mistura única, particularmente entre a população católica, dos usos e costumes de origem portuguesa numa matriz indiana. Seja na culinária, com pratos similares aos que se encontram no nordeste do Brasil ou na tradição de festejos de São João. Uma identidade que se manifesta também num modo de pensar ocidental mas embebido na cultura indiana, o que permite uma grande abertura dos goeses ao Ocidente.

É mais comum encontrar pessoas com mais de 50 anos que falem o português.  Como atrair o interesse da juventude para o aprendizado desse idioma?

É verdade que pessoas mais jovens em Goa não falam mais o português, tirando uma pequena minoria, geralmente pertencente à elite. Este declínio de falantes de português resultou especialmente de uma situação política, depois da ocupação de Goa pela Índia em 1961. Quando Goa deixou de ser uma colônia portuguesa, e até a década de 1990, tanto do lado português como do indiano houve uma omissão na manutenção e difusão da língua portuguesa. Também a substituição do português pelo inglês nas escolas e na administração pública depois de 1961 contribuiu para que o português começasse a desaparecer. A partir do ano 2.000, com a instalação de instituições portuguesas como a Fundação Oriente ou o Instituto Camões, e também pelo apoio de instituições e colégios locais, verificou-se maior interesse pela aprendizagem do português, especialmente entre os mais jovens.

Como regra, esse ensino da língua portuguesa aos jovens é esporádico e pontual. O que faz com que o aprendizado não tenha uma continuidade. A meu ver, o interesse da juventude goesa pela língua portuguesa pode apenas ser incrementado por um continuado e sustentável ensino de língua nas escolas, começando no jardim de infância. Ações pontuais e aleatórias de ensino de língua que predominam estão condenadas ao fracasso em termos de solidificação e criação de uma população fluente em portuguès, mesmo que seja minoritária.

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