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Religiosos islâmicos condenam execução de piloto jordaniano

Proeminente clérigo egípcio defende que assassinos do Estado Islâmico merecem ser 'mortos, crucificados ou ter seus membros amputados'

O Estado de S. Paulo

04 de fevereiro de 2015 | 15h33

AMÃ - A mais nova execução divulgada pelo grupo extremista Estado Islâmico (EI), que queimou vivo um piloto da Força Aérea jordaniana, causou revolta entre líderes e religiosos islâmicos do Oriente Médio nesta quarta-feira, 4.

O diretor da faculdade islâmica sunita mais respeitada, a Universidade Al-Azhar, no Egito, afirmou que os militantes merecem a pena de morte prevista no Alcorão por serem inimigos de Deus e do profeta Maomé. "O Islã proíbe tirar a vida de um inocente", afirma Ahmed Al-Tayeb, acrescentando que a imolação do piloto Muath Al-Kaseasbeh é contra as regras da religião, mesmo em tempos de guerra. Segundo o líder religioso, os assassinos do piloto merecem ser "mortos, crucificados ou ter seus membros amputados".

A aplicação da pena de morte é comum no Oriente Médio muçulmano, sendo o enforcamento um dos métodos mais usados. A decapitação é rotineiramente utilizada na Arábia Saudita, enquanto no Irã e no Paquistão, penas de apedrejamento, apesar de pouco utilizadas, estão previstas no código penal.

A imolação, entretanto, é um punição incomum. Segundo o clérigo saudita Sheik Salman Al-Oudah, a punição é proibida pelo Islã, uma vez que o próprio profeta Maomé afirmou que apenas Deus tem o direito de aplicá-la.

No Catar, a Associação Internacional de Estudiosos Muçulmanos, chefiada pelo proeminente clérigo Youssef al-Qaradawi, divulgou um documento de cinco páginas nesta quarta-feira com citações do Alcorão em que mostra que não se deve tratar mau prisioneiros de guerra. "A associação garante que essa organização extremista não representa o Islã de nenhuma maneira e suas ações sempre ferem o Islã", afirmou o clérigo. "A frouxidão da comunidade internacional em tratar com um presidente que mata seu povo (...) é o que criou esses grupos extremistas e deu a eles um ambiente fértil", disse, em alusão ao presidente sírio, Bashar Assad.

Certos religiosos divergem dessa visão e recorreram ao Alcorão para tentar justificar as ações do grupo extremista. Hussein Bin Mahmoud, que é ligado ao Estado Islâmico, afirmou via redes sociais que dois dos sucessores do profeta Maomé aprovavam a imolação como pena para renegados árabes no século 7. Já o estudioso Bin Mahmoud escreveu que o livro sagrado dos muçulmanos os permite retribuir as ofensas feitas pelos inimigos na mesma moeda. Uma vez que os ataques aéreos pelo Ocidente "queima" os muçulmanos, ele argumenta, o Estado Islâmico pode fazer o mesmo.

Essa interpretação, entretanto, não é aceita pela maioria dos muçulmanos. Líderes e representantes de países muçulmanos como os Emirados Árabes Unidos, a Jordânia, o Catar e a Turquia, assim como de organizações islâmicas como a Cooperação Islâmica condenaram o ocorrido. O Irã, que ajuda tanto o Iraque quanto a Síria na luta contra o Estado Islâmico, afirmou que o incidente foi um ato "desumano" que violou os códigos do Islã, de acordo com um comunicado da porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Marziyeh Afkham.

"Quantos (...) foram as pessoas assassinada pelo Estado Islâmico e seus irmãos?", perguntava um artigo no jornal libanês Assafir. "Quantos Al-Kaseasbehs sírios morreram nos últimos quatro dias (...) sem que isso chegassem às manchetes dos jornais?" / ASSOCIATED PRESS e REUTERS

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