Relógio adiantado, recuo no tempo

Medidas estapafúrdias, como o que altera o fuso horário, refletem a obsessão de Chávez em deixar sua marca no poder

Simon Romero, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2002 | 00h00

''''A rotina da cidade se ajustará ao novo fuso horário'''', diz a manchete do dia 23 do jornal Últimas Noticias, o diário de maior circulação de Caracas. O tablóide, simpático ao presidente Hugo Chávez, prossegue descrevendo os benefícios de seu plano de adiantar os relógios em meia hora na tentativa de melhorar o '''' metabolismo'''' de seus concidadãos.Numa época de anúncios políticos alarmantes de Chávez, não espanta que folhear um jornal na República Bolivariana da Venezuela às vezes possa parecer uma vista de olhos num jornal humorístico. As declarações recentes de Chávez deixaram alguns venezuelanos perplexos com a inspiração de suas últimas medidas.No dia 19, Chávez apresentou planos para construir um conjunto de cidades em ilhas artificiais para demarcar a soberania da Venezuela no Caribe, e para importar 5 mil fuzis de precisão russos para armar guerrilheiros em caso de invasão americana. Foi também nesse dia que ele anunciou a alteração do fuso horário.Esses anúncios refletem as mudanças profundas em instituições políticas que permitiram que Chávez consolidasse seu poder. Seu governo mostra a intenção de deixar uma marca simbólica em tudo, do brasão do país - redesenhado com um cavalo branco virado para a esquerda, em harmonia com as idéias de esquerda do presidente - a seus navios petroleiros rebatizados em homenagem a figuras históricas em vez de vencedoras de concursos de miss.A proposta de mudança no fuso horário - planejada para acompanhar uma mudança na jornada de trabalho para seis horas, um esforço de Chávez para acelerar um projeto de inspiração socialista para transformar a sociedade venezuelana - provocou espanto em todo o mundo.Ele colocaria a Venezuela em companhia de Afeganistão, Índia, Irã e Mianmá, países que ajustaram o tempo em adiantamentos de meia hora em relação ao Tempo Médio de Greenwich (GMT, na sigla em inglês). O Nepal também fica de fora, com seus relógios adiantados 15 minutos em relação à Índia e 5 horas e 45 minutos em relação a Greenwich, Inglaterra.O mais graduado consultor científico de Chávez, Hector Navarro, cujo título oficial é ministro do Poder Popular para Ciência e Tecnologia, justificou a mudança dizendo que isso melhoraria o metabolismo e a produtividade dos venezuelanos, dando-lhes mais acesso à luz solar todos os dias.A política também está em jogo na mudança do fuso horário. Navarro disse à agência de notícias oficial da Venezuela que a medida reverteria uma decisão de atrasar os relógios em meia hora de meados dos anos 60, durante a administração do presidente Raúl Leoni - ''''um governo dos interesses da burguesia no qual aspectos que afetavam os seres humanos estavam ligado aos lucros de empresas''''.À medida que as propostas de Chávez e seus funcionários graduados tornam-se mais imprevisíveis, Francisco Rodríguez, que já foi aliado de Chávez como economista-chefe da Assembléia Nacional e agora é um crítico do regime, recomenda uma observação atenta da história rica em caudilhos da Venezuela para se compreender a situação corrente.CAUDILHISMORodríguez, que leciona estudos latino-americanos na Universidade Wesleyan, disse que o antecessor de Chávez mais próximo do seu estilo foi Cipriano Castro, que governou o país de 1899 a 1908. Como Chávez, Castro assumiu o controle de empresas estrangeiras e sonhava restaurar o projeto da Grã-Colômbia de Simón Bolívar, que envolvia uma união de Venezuela, Colômbia e Equador.Castro também teve pouca consideração pela elite econômica arrogante da Venezuela. Ele fez os banqueiros do país desfilarem em grilhões e os atirou na prisão por se recusarem a rolar a dívida interna. No dia seguinte, os banqueiros cederam.Rodríguez disse também que a reforma constitucional de Castro, de 1904, é ''''pavorosamente semelhante'''' à reforma constitucional apresentada por Chávez do mês passado, uma vez que eliminou a limitação de mandatos, aumentou o número de vice-presidentes e reduziu, em grande medida, o poder dos governos provinciais.''''A boa nova para os antichavistas é que Castro só permaneceu no poder até 1908'''', disse Rodríguez. ''''A má notícia é que ele foi substituído pelo vice-presidente, Juan Vicente Gómez, que ficou no poder até 1935.'''' Dados os aspectos teatrais de Chávez, não é difícil perder de vista a amplitude das mudanças econômicas e políticas que ele põs em marcha, tanto em casa como no exterior.Na Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep), Chávez ajudou a fortalecer a espinha do cartel com um lobby frenético por cortes na produção de petróleo, contribuindo para a alta dos preços do produto durante toda esta década.Ele desafiou a supremacia do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial nos círculos financeiros latino-americanos oferecendo empréstimos a juros baixos a países como Argentina, Bolívia e Equador.Mas as mudanças mais radicais de Chávez ocorreram depois de sua reeleição, em dezembro, para um mandato de seis anos. Chávez forjou um Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV) para seus seguidores; nacionalizou empresas de petróleo, telefonia e eletricidade; tirou uma emissora de televisão importante do ar, e endureceu, em meio a uma alta da inflação, controles de preços sobre alimentos básicos como frango, leite e ovos.Suas ambições de reescrever a Constituição fortaleceriam seu controle sobre instituições políticas, efetivamente circunscrevendo a influência dos opositores a alguns governos municipais e estaduais. Os seguidores de Chávez já controlam a Suprema Corte, a burocracia federal, a Assembléia Nacional e as companhias estatais.''''EU, O SUPREMO''''A mudança mais controvertida é o projeto de reforma que permitiria que Chávez se reelegesse indefinidamente e criasse novas entidades de governos regionais dirigidas por vice-presidentes nomeados por ele.Não é sem ironia que o Tal Cual, um jornal de oposição, está se referindo a Chávez como ''''Eu, o Supremo'''', numa referência ao romance clássico de mesmo nome de Augusto Roa Bastos sobre a vida do ditador paraguaio José Gaspar Rodríguez de Francia.''''O presidente quer dar um golpe constitucional para perpetuar-se no poder'''', disse Teodoro Petkoff, um ex-guerrilheiro com credencias esquerdistas impecáveis, que é editor do Tal Cual.Com avaliações tão assustadoras do governo Chávez vindo de todos os quadrantes, os efeitos potencialmente positivos de algumas de suas idéias, mesmo aquelas que se referem ao fuso horário do país, são muitas vezes subestimados.Víctor Rodríguez, um respeitado astrofísico de Maracaibo, disse que a medida se justificaria porque reduz o consumo de energia. ''''Não sou chavista. Não tenho cargo no governo. Mas falando francamente, isso beneficiará o país'''', disse Rodríguez. ''''Todo país tem a liberdade de escolher seu próprio fuso horário.''''

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