David Mercado / Reuters
David Mercado / Reuters

Renovação da fé se contrapõe a culto local

Na Bolívia, é cada vez maior a devoção à mãe-terra; papa visitará violento presídio

Luciana Nunes Leal / RIO, O Estado de S. Paulo

05 de julho de 2015 | 03h00

Renovação da fé cristã e a denúncia de injustiças contra a população pobre são os dois recados mais esperados pela Igreja boliviana na passagem do papa Francisco por La Paz e Santa Cruz de la Sierra, entre quarta e sexta-feira. 

O pontífice chega ao país em um momento em que é crescente a adesão de comunidades indígenas e camponesas ao culto da Pachamama, ou mãe-terra, entidade ligada à produtividade e agricultura.

“Nos últimos anos, a Bolívia passou a valorizar os cultos à Pachamama. Sobretudo o mundo camponês voltou a render homenagens e cultuar a mãe-terra, o que é preocupante, pois reduz a fé e a devoção popular (católicas). A mensagem do papa é a de permanecer na fé cristã do povo”, disse ao Estado o monsenhor Jesús Pérez Rodríguez, arcebispo emérito de Sucre, coordenador de Comunicação e Logística da visita papal.

Além da missa no Cristo Redentor de Santa Cruz, localizado no centro da cidade, na quarta-feira, outro compromisso do papa em Santa Cruz de la Sierra destacado pelo arcebispo é a visita ao presídio de Palmasola, dois dias depois. A penitenciária é a mais violenta da Bolívia e símbolo de um sistema prisional caótico, com detentos que cumprem pena irregularmente, domínio de grupos criminosos e rebeliões.

Em 2013, Palmasola foi palco de um motim que resultou na morte de 35 pessoas, entre presos e parentes, entre os quais uma criança de 18 meses. “A visita a Palmasola é um gesto de atenção aos mais pobres e um clamor por justiça mais eficiente, mais transparente”, disse o monsenhor.

O arcebispo disse não acreditar que Francisco mencione em seus pronunciamentos a questão da droga, já que, na Bolívia, a plantação da folha de coca, matéria-prima da cocaína, emprega muitas famílias e mascar a folha é costume tradicional.

“O papa João Paulo II, em 1988, quando esteve na Bolívia, não tocou no tema da folha de coca e da cocaína, pela complexidade do problema. Não acredito que o papa Francisco mencionará. Na Europa, quando se fala em coca, se pensa em cocaína. Não há que se confundir isso com uma tradição da plantação da folha, uma tradição na Bolívia. Mascar a folha de coca não significa que uma pessoa se drogue”, afirmou o religioso.

O Vaticano deu indicações de que o pontífice também não pretende tomar partido diretamente no conflito marítimo entre Bolívia e Chile. Os bolivianos perderam o acesso ao mar depois da Guerra do Pacífico (1879-1883). O litígio chegou à Corte Internacional de Justiça, em Haia, em 2013.

Em mensagem divulgada no mês passado à população de Equador, Bolívia e Paraguai, países que serão visitados pelo papa nesta segunda viagem à América do Sul – a primeira foi ao Brasil, para a Jornada Mundial da Juventude, em 2013 –, o papa disse que pretende “compartilhar as preocupações e manifestar afeto”, sobretudo aos “mais necessitados, aos anciãos, aos doentes, aos encarcerados, aos pobres e às vítimas da cultura do descarte”. Francisco pediu aos fiéis que “sejam perseverantes na fé, tenham o fogo do amor, da caridade e se mantenham perseverantes na esperança”.

Outro compromisso do papa em Santa Cruz será a presença no último dia do Encontro Mundial dos Movimentos Populares, na quinta-feira. Francisco fará uma rápida passagem por La Paz, na quarta-feira, entre as 16 horas e as 20 horas. Na passagem pela capital, visitará o presidente Evo Morales. A chegada do pontífice no Aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, está prevista para 21h15.

Em Santa Cruz, o papa deve percorrer ao menos dois trajetos em carro aberto. O primeiro, entre a residência oficial do Arcebispado e o Cristo Redentor, onde será rezada a missa campal. O segundo será na despedida, na sexta-feira, no caminho para o aeroporto. 

A agenda do papa inclui ainda encontro com religiosos e seminaristas, na quinta-feira, e uma reunião com bispos bolivianos, na véspera. Da Bolívia, o papa seguirá para o Paraguai, última etapa da visita à região.

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