Renovar as relações Brasil-EUA

Países precisam resolver disputas antigas e criar vínculos mais estreitos e produtivos

PETER, HAKIM, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2015 | 02h01

O s governos do Brasil e dos Estados Unidos parecem cada vez mais propensos a reduzir as tensões que ainda subsistem na sua atribulada relação e criar vínculos mais estreitos e mais produtivos. E vêm discutindo abertamente sobre uma possível data para uma visita de Estado da presidente Dilma Rousseff a Washington. A visita havia sido planejada para outubro de 2013, mas foi cancelada após a revelação de Edward Snowden de que os EUA espionavam o Brasil.

Ao que parece, a presidente brasileira e a maior parte dos seus assessores estão convencidos de que um relacionamento mais construtivo é vital para a retomada econômica e o sucesso do país no longo prazo. E estão dispostos a relegar o caso Snowden para a história. O interesse dos Estados Unidos em restaurar e aprimorar as relações bilaterais ficou claramente destacado com a presença do vice-presidente americano, Joe Biden, na cerimônia de posse de Dilma em 1.º de janeiro - a segunda visita de Biden ao Brasil em seis meses.

Mas os dois governos têm se mostrado tímidos nas propostas oferecidas. Medidas mais audaciosas são necessárias. Ambos os países deveriam aprender com os avanços observados nos laços entre Estados Unidos e Índia nos últimos 12 anos, quando uma relação antes distante e às vezes antagonista transformou-se numa parceria importante. Apesar de desacordos ainda permearem a diplomacia entre os dois países, a Índia é hoje elemento crucial para a estratégia americana na Ásia.

Em 1998 Washington, tempestuosamente, impôs sanções severas contra a Índia pelo fato de o país ter testado uma bomba atômica. Hoje os Estados Unidos aceitam plenamente a Índia como potência nuclear e são os maiores provedores de equipamento militar para o país, fornecendo tecnologia de vanguarda para seu programa nuclear para fins civis. Certamente, esta drástica mudança se refletiu principalmente nas áreas prioritárias de defesa e segurança compartilhadas pelas duas nações, o que tem pouca relevância para as relações entre Estados Unidos e Brasil. O importante não é a essência dos acordos entre americanos e indianos. As negociações e a implementação de seus acordos é que interessam.

Em primeiro lugar, os negociadores americanos e indianos concentraram-se em questões cruciais envolvendo as relações bilaterais e não em problemas periféricos. Não solucionaram todas, mas conseguiram forjar compromissos em muitos aspectos e avançar em outros. Em segundo lugar, com plena consciência dos seus interesses comuns, os dois países se empenharam seriamente não em posições específicas, mas no sentido de as negociações serem bem sucedidas. Ambos fizeram concessões difíceis politicamente. Em terceiro lugar, não permitiram que assuntos não relacionados, mesmo tendo um grande peso político, interferissem na aplicação dos acordos, incluindo, por exemplo, a prisão amplamente divulgada em Nova York de um diplomata indiano e desacordos entre os dois países em conversações no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).

No caso de EUA e Brasil, interesses econômicos bilaterais são a única base realista para uma cooperação no longo prazo. As autoridades brasileiras sabem que mercados, capital de investimento e transferência de tecnologia dos EUA são necessários para a recuperação e uma expansão sustentada do Brasil. O comércio entre os dois países cresceu substancialmente nos últimos anos, mesmo que a China seja hoje a principal parceira comercial do Brasil.

Mas o Brasil ainda representa somente 2% do comércio total dos Estados Unidos, em comparação com os 15% do México. Na verdade o Brasil não está na porta de entrada dos Estados Unidos, mas tampouco a China, que vende tanto para consumidores americanos quanto o México. Com políticas apropriadas e acordos bilaterais, o Brasil deverá dobrar ou triplicar suas exportações para os EUA, na maior parte produtos manufaturados e não commodities, que constituem a base das vendas do Brasil para a China.

O Brasil deve também ver um aumento considerável dos investimentos vindos dos Estados Unidos, e atrair muito mais tecnologia e ciência desse país.

Por diversas vezes os Estados Unidos manifestaram seu interesse em vínculos econômicos mais robustos com o Brasil. Praticamente em todas as visitas de presidentes americanos ao País nas últimas duas décadas a ênfase foi no comércio. Barack Obama trouxe todo seu gabinete econômico com ele e cerca de 50 CEOs de grandes empresas. Os investidores dos Estados Unidos sabem dos enormes recursos e do mercado interno do Brasil e reconhecem a importância da sua estabilidade política e do clima pacífico que reina entre os vizinhos sul-americanos. O governo americano também está consciente da importância de uma melhor relação política com o Brasil. Os EUA necessitam do apoio brasileiro para aplicar um programa consequente na América Latina.

O Brasil, por exemplo, ofereceria uma contribuição vital para as relações entre Estados Unidos e Cuba auxiliando Havana a atravessar um período difícil de transição.

Mudanças de caráter político necessárias para impulsionar o comércio entre os dois países não serão fáceis. O Brasil é um país que há muito tempo privilegia políticas de administração e regulamentação da economia pelo governo, amplamente nacionalistas, e hoje se defronta com uma economia quase em recessão. Mas a boa notícia é que as necessárias mudanças também resolveriam muitos problemas internos cruciais do Brasil e atenderiam também as empresas estrangeiras.

Muitas destas mudanças já fazem parte da agenda da equipe econômica do governo de Dilma Rousseff. Mudanças que abrangem reformas para abertura dos mercados, redução de tarifas, corte de subsídios e de vantagens na área de aquisições para empresas nacionais; aprimoramento das instalações portuárias e da infraestrutura de transporte em geral; e para tornar o ambiente de negócios mais fácil para se trabalhar, com reformas dos sistemas regulatórios e fiscais que consomem tempo e de leis trabalhistas arcaicas. Para tudo isso ser implementado serão necessários habilidade política e empenho, mais do que experiência econômica.

Washington terá também de fazer mudanças e concessões. Os subsídios e tarifas agrícolas nos Estados Unidos devem ser reduzidos, alguns substancialmente. A transferência de tecnologia, talvez para o setor nuclear do Brasil, tem de ser simplificada e estimulada. EUA e Brasil precisam resolver juntos disputas antigas sobre propriedade intelectual. E os Estados Unidos devem também ser mais receptivos à participação ativa do Brasil em diversos assuntos globais.

Uma visita de Estado da presidente Dilma a Washington pode contribuir sob muitos aspectos para criar um novo entendimento entre os dois países. Mas tal visita não deve ser decidida prematuramente. Ambos os governos precisam se colocar de acordo com um programa que inclua questões importantes que dividem os dois países e devem começar a identificar o que necessita ser feito para solucioná-las. Tudo isso antes de os dois presidentes se sentarem para conversar.

Até onde for por possível, Brasil e Estados Unidos devem decidir que resultados pretendem obter, antes da visita, e elaborar um programa e uma agenda para alcançá-los. Foi basicamente o que Índia e Estados Unidos fizeram. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PRESIDENTE DO DIÁLOGO INTERAMERICANO

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