Kasia Strek/Washington Post
Kasia Strek/Washington Post

Repentinamente acolhedora, Europa abre as portas para refugiados que fogem da Ucrânia

Mais de 520 mil pessoas saíram da Ucrânia em direção a outros países europeus em menos de uma semana. Solidariedade do continente contrasta com crise migratória de 2015 e 2016

Anthony Faiola, Rick Noack e Karla Adam, The Washington Post

01 de março de 2022 | 19h37

Países da Europa estão abrindo as portas para uma onda histórica de refugiados que fogem da guerra na Ucrânia, rompendo com a resistência do continente aos requerentes de asilo do mundo muçulmano e da África e abraçando centenas de milhares de recém-chegados que alguns líderes consideram cultural e etnicamente europeus.

Em rápida escalada, a onda ucraniana – já com mais de 520 mil pessoas em menos de uma semana – parece prestes a superar a histórica crise migratória europeia de 2015 e 2016, quando 2 milhões de pessoas buscaram refúgio, a maioria sírios fugindo da guerra civil. Essas chegadas provocaram intenso atrito entre os países da União Europeia, alimentaram um ressurgimento da extrema-direita e levaram a políticas de reação projetadas para impedir ou rechaçar os requerentes de asilo.

A solidariedade do momento atual está em forte contraste, particularmente em meio a estimativas de que os números podem chegar aos milhões e potencialmente constituir a maior onda de refugiados no continente da era pós-Segunda Guerra Mundial. Alguns líderes não se envergonham da dramática mudança de atitude.

“Não são os refugiados com os quais estamos acostumados (...). Essas pessoas são europeias”, o primeiro-ministro búlgaro, Kiril Petkov, disse a jornalistas sobre os ucranianos, conforme relatado pela Associated Press. “Essas pessoas são inteligentes, são pessoas educadas (...). Não é a onda de refugiados a que estamos acostumados, pessoas sobre cuja identidade não tínhamos certeza, pessoas com passado obscuro, que podiam até ser terroristas”.

“Em outras palavras”, acrescentou, “agora não há um único país europeu que tenha medo da atual onda de refugiados”.

Governos nas partes oriental e central do continente que até então eram firmemente contrários aos refugiados, de repente se tornaram alguns dos maiores defensores de uma política de portas abertas – mesmo que sua postura acolhedora pareça limitada aos ucranianos.

Em meados da década de 2010, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, construiu cercas de arame farpado e mobilizou “caçadores de fronteira” com veículos 4x4, óculos de visão noturna e cães farejadores de migrantes para impedir a chegada de requerentes de asilo vindos de um arco de instabilidade que se estendia da África ao Afeganistão. No domingo, ele disse a jornalistas que “todos que fogem da Ucrânia encontrarão um amigo no estado húngaro”.

Quando Belarus começou a encaminhar solicitantes de asilo do Oriente Médio e do Afeganistão para a Polônia no ano passado, Varsóvia despachou tropas e rechaçou os imigrantes – alguns dos quais morreram congelados na floresta. Nos últimos dias, no entanto, as ferrovias estatais polonesas anunciaram viagens gratuitas para os ucranianos, e a população doou toneladas em ajuda humanitária.

Parte dessa disparidade pode ser explicada pelos diferentes fatores de pressão em jogo. Os líderes da União Europeia disseram que o presidente belarusso, Alexander Lukashenko, hoje sob pesadas sanções, estava tentando fabricar uma crise e desestabilizar o bloco usando os imigrantes como peões. Agora, a União Europeia tem uma guerra chocante acontecendo na sua vizinhança.

“Os países do Leste Europeu estão vendo a chance de mostrar unidade com um vizinho e se posicionar contra a hostilidade russa”, disse Hanne Beirens, diretora do Migration Policy Institute Europe. Em comparação com 2015 e 2016, disse ela, “[A Europa] está em uma situação política muito diferente, um cenário político muito diferente”.

Mas, em entrevistas ao Washington Post, várias autoridades europeias foram francas ao dizer que as políticas de identidade também têm um papel importante.

“Honestamente, o sentimento é diferente, pois eles são brancos e cristãos”, disse uma autoridade europeia, que falou sob condição de anonimato para se expressar com franqueza.

A União Europeia está abrindo as portas mesmo enquanto permanece reticente em receber a Ucrânia no seu clube de 27 países. O presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, fez um novo apelo por “adesão urgente” na segunda-feira. Até agora, a União Europeia se recusou a assumir o risco de ajudar a defender o território ucraniano da ameaça russa ou permitir a livre circulação de mais 44 milhões de pessoas dentro do bloco.

Mas a brutalidade da invasão russa e o grande número de ucranianos deslocados, argumentaram alguns, exigiram uma forte resposta coletiva – particularmente porque a luta na Ucrânia está enraizada no desejo de seu povo de se conectar com os princípios da democracia e dos direitos humanos da União Europeia e se afastar da órbita autoritária de Moscou.

E assim a União Europeia, formada como uma aliança comercial, deu o passo sem precedentes de financiar a compra e a entrega de armas à Ucrânia. E agora se espera que os líderes da União Europeia anunciem na quinta-feira que permitirão que os ucranianos recebam proteção temporária por até três anos, potencialmente permitindo que trabalhem legalmente e acessem serviços sociais.

Uma reunião de emergência de ministros do interior da União Europeia decidiu pela “solidariedade entre todos os países da União Europeia para acolher conjuntamente os refugiados de guerra de forma rápida e sem burocracia”, disse no domingo a ministra do interior alemã, Nancy Faeser.

“Não sei quantos virão”, disse a comissária de Assuntos Internos da União Europeia, Ylva Johansson, quando perguntada sobre a escala de refugiados que ela espera. “Acho que teremos de nos preparar para milhões”.

Beirens disse que os países da União Europeia tinham um interesse adicional em apoiar a medida, porque liberaria sistemas de asilo que, de outra forma, seriam sufocados por novos pedidos ucranianos. A Europa, no entanto, não tomou medidas semelhantes em 2015 e 2016. Em muitos casos, requerentes de asilo do Oriente Médio e da África tiveram de esperar anos no limbo legal, o que dificultou a procura de emprego na economia formal, enquanto seus pedidos eram avaliados.

Assim, embora os defensores dos refugiados tenham aplaudido o crescente apoio da União Europeia aos refugiados ucranianos, alguns também se irritaram com a forma como a etnia, a cultura e a religião parecem estar direcionando a resposta humanitária.

“Alguém que entenda a mente liberal, por favor me explique: por que as vidas de ucranianos são mais preciosas do que as de haitianos, palestinos, etíopes, afegãos, sírios, iranianos, africanos?”, tuitou Ajamu Baraka, ativista americano de direitos humanos. “Eles só se comovem com imagens de sofrimento de brancos?”

Tarik Abou-Chadi, professor associado de política europeia na Universidade de Oxford, tentou explicar o quadro em uma entrevista ao Post: “Existe a ideia de um destino compartilhado – ‘nós podemos ser os próximos’ – e uma identidade compartilhada que se opõe ao imperialismo russo. Então, isso dá a algumas pessoas um senso de comunidade diferente com as que estão fugindo agora. Isso pode aumentar a compaixão por esses refugiados ucranianos, em comparação com os da Síria”.

Em entrevistas na quinta-feira, vários refugiados e requerentes de asilo na Grécia – um dos principais pontos de chegada para quem foge do Oriente Médio e dos conflitos africanos – disseram com naturalidade que não estavam surpresos que a Europa estivesse abordando a crise atual de maneira diferente.

Um nigeriano em Atenas, que falou sob condição de anonimato por temer por sua segurança, disse que está acompanhando as notícias e que simpatiza com os ucranianos que fogem da guerra. “Mas, você sabe, tem muita gente morrendo no Iêmen”, disse ele. “E muitas pessoas estão morrendo na Etiópia, numa violência horrível. Isso não vira notícia. Agora é a Europa, os europeus que estão fugindo (...). Eu ouço as pessoas dizendo: ‘Todas as vidas importam’, mas não, elas não importam do mesmo jeito. Vidas negras importam muito menos”.

No mesmo momento em que dá as boas-vindas aos ucranianos, a Europa está financiando a guarda costeira da Líbia para impedir que os migrantes cruzem o Mediterrâneo para a Itália. As forças de segurança gregas foram acusadas de empurrar os imigrantes de volta para as águas turcas, uma violação ao direito internacional. Aqueles que têm a sorte de chegar ao solo grego muitas vezes acabam em um acampamento altamente vigiado, onde podem ficar por mais de um ano.

A Grã-Bretanha – que deixou a União Europeia em parte devido ao desejo de “retomar o controle” de suas fronteiras – sinalizou na segunda-feira que está disposta a abrir a porta para os ucranianos, mas apenas uma brecha. A oferta é limitada aos familiares de cidadãos britânicos. A secretária do Interior, Priti Patel, estimou que 100 mil ucranianos poderiam “buscar refúgio”, desde que fossem aprovados nas verificações de segurança.

No fim de semana, um ministro tuitou – e depois deletou – que havia “várias rotas” para refugiados ucranianos sem conexões familiares virem para a Grã-Bretanha, incluindo vistos de trabalho que lhes permitiriam colher frutas e legumes da estação.

A sugestão foi muito criticada como inadequada para o momento. “As pessoas estão fugindo da guerra na Europa, de um jeito que não vemos há gerações, em busca de um refúgio rápido”, escreveu uma parlamentar de oposição, a Trabalhista Yvette Cooper.

Pesquisas sugerem que o governo conservador da Grã-Bretanha está fora de sintonia com a opinião pública, com a maioria dizendo que apoiaria os esforços de reassentamento de refugiados. Esta também era a sensação na noite de domingo no sul de Londres, onde os londrinos foram a um centro comunitário polonês para doar milhares de sacolas cheias de roupas, remédios, fraldas, sacos de dormir e muito mais para ucranianos em fuga.

“São cidadãos muito vulneráveis. O ideal seria ver o Reino Unido abrir as portas”, disse Dia Day, 19 anos, estudante que levava caixas de roupa de cama para dentro de uma van destinada a refugiados ucranianos na Polônia.

No continente, ainda não está claro quanto tempo durará a recepção calorosa. Em 2015, a então chanceler da Alemanha, Angela Merkel, disse ao seu país “nós podemos fazer isso” e abriu as portas da maior economia da Europa para os sírios. Grupos de alemães apareceram para receber os novos imigrantes muçulmanos com flores e abraços nas estações de trem.

Mas, para muitos alemães, as boas-vindas foram se esgotando à medida que o número de refugiados continuou crescendo, as fileiras de imigrantes acabaram infiltradas por um pequeno número de terroristas treinados e as contas da ajuda financeira chegaram. Merkel mais tarde voltaria atrás em sua decisão – uma decisão que iria assombrar sua carreira política. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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