Repetição de erros cometidos no Iraque preocupa Casa Branca

Cenário: Anne Gearan e Joby Warrick / W. Post

O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2012 | 03h01

O governo de Barack Obama está advertindo as forças de oposição sírias para não desmantelarem o odiado aparato de segurança e de governo de Bashar Assad se ele for morto ou forçado a deixar o poder. Com isso, autoridades americanas querem evitar o caos e o vácuo de poder do Iraque em 2003.

"Não se deve ter uma dissolução completa desse (sistema) porque suas instituições serão necessárias numa transição política", disse uma autoridade americana que pediu anonimato ante a delicadeza das discussões com uma fragmentada oposição síria. "É preciso evitar a 'desbaathização' do país." Um ramo do movimento nacionalista árabe Baath também governou o Iraque com Saddam Hussein.

As advertências do governo Obama a grupos rebeldes surgem em meio a uma guerra civil que já tem uma forte conotação sectária. Um período prolongado de chacinas em represália poderia se seguir ao colapso do sistema de segurança de Assad, sejam quais forem os planos dos Estados Unidos ou de seus contatos políticos atuais na oposição síria.

Mesmo assim, o governo insistiu publicamente para as forças de oposição, dominadas por sunitas, respeitarem os direitos das minorias numa Síria pós-Assad, embora tivesse evitado comparações públicas genéricas com o Iraque. O exemplo do Iraque, incluindo apostas erradas em figuras da oposição e o vácuo de poder que se seguiu à derrubada de Saddam em 2003, é um importante motivo para o presidente Obama ter praticamente descartado uma ajuda militar direta aos rebeldes.

Por recomendação de alguns adversários políticos de Saddam, os Estados Unidos apoiaram a política de "desbaathização" que expulsou de cargos públicos até figuras de baixo escalão do regime. Essa política esvaziou ministérios fundamentais do governo e destampou o ódio sectário.

Na Síria, a facção alauita de Assad representa cerca de 12% dos aproximadamente 22 milhões de habitantes do país, mas ela controla a maioria dos cargos públicos principais. Os muçulmanos sunitas constituem cerca de 75% da população, e os cristãos e outros grupos, o restante.

A secretária de Estado Hillary Clinton salientou a importância do pluralismo político numa futura Síria livre após várias reuniões com figuras da oposição fora do país. Autoridades americanas foram encorajadas por uma declaração neste mês do maior grupo rebelde, o Exército Sírio Livre, afirmando acreditar em "uma Síria livre e democrática em que vivam todos os cidadãos sírios, sejam quais forem suas identidades étnicas, religiosas e sectárias".

A advertência americana sobre o apoio aos rebeldes tem base, em parte, em evidências de que alguns grupos que combatem as forças do governo são filiados à Al-Qaeda ou recebem apoio dela. O uso crescente de bombas improvisadas e atentados suicidas com carros-bomba na Síria emprestou crédito a essa preocupação e pode sugerir que a influência das redes terroristas está crescendo na Síria.

Números obtidos pelo Washington Post mostram que a taxa de ataques com bombas improvisadas quadruplicou em relação ao ano passado. Foram registrados 273 incidentes desse tipo entre 1.º de dezembro e 6 de julho. O aumento foi mais dramático no uso de carros-bomba, marca registrada da Al-Qaeda no Iraque. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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