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Repórter agredida no Egito deixa hospital

Caso de abuso envolvendo jornalista americana amplia debate sobre o tema e revela omissão da grande imprensa dos EUA sobre o incidente

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2011 | 00h00

O caso de abuso sexual contra a repórter Lara Logan, da CBS News na Praça Tahrir, no Cairo, assombrou os EUA tanto pela violência contra uma mulher quanto pelos comentários na internet e pela resistência da grande imprensa em publicar o fato. Lara deixou o hospital na noite de quarta-feira.

Blogueiros da extrema direita imediatamente tomaram o episódio como base para difundir seus preconceitos ao Islã. O jornalista Nir Rosen, respeitado correspondente em vários conflitos, perdeu seu posto na New York University por causa de suas frases sobre o caso no Twitter. Lara Logan estava com uma equipe de 20 profissionais da CBS cobrindo a celebração popular da renúncia de Hosni Mubarak, no dia 11, quando foi cercada por uma gangue com cerca de 200 pessoas. Espancada e estuprada, foi salva pela intervenção de mulheres egípcias e de 20 soldados.

Rosen lamentou ter feito os comentários apressados a um amigo, pelo Twitter, e pediu desculpas em público. Apesar de ter apagado as frases, elas foram devidamente registradas. "Num momento em que ela (Lara) vai se tornar uma mártir e ser glorificada, deveríamos ao menos nos lembrar de seu papel de fomentadora de uma grande guerra", afirmara.

A demissão de Rosen e o telefonema à repórter do presidente dos EUA, Barack Obama, na quarta-feira, chamaram a atenção pública para a brutalidade sofrida por Lara, até então ocultada pelos grandes jornais americanos e pela própria CBS. Os tabloides New York Post e New York Daily News já haviam estampado o crime na capa. No seu blog no Washington Post, Richard Cohen, criticou a omissão da CBS na divulgação do crime contra sua repórter. "Muitas organizações jornalísticas não divulgam o nome de vítimas de estupro", argumentou Cohen. "No caso de Lara, infelizmente, não haveria meio de ocultar seu nome. Sua privacidade não é tão importante quanto a notícia."

Entretanto, essa mesma posição foi mantida pelo Washington Post. Na sua edição de ontem, apenas a colunista Alexandra Petri explorou o tema. Ela lembrou não ser o Egito uma "sociedade livre" e mencionou dados do Centro Egípcio para os Direitos da Mulheres - 83% das consultadas sofreram algum tipo de abuso. Para estrangeiras no país, o índice é de 98%.

Enquanto a repórter se recupera, proliferam os comentários antimuçulmanos pela internet. Debbie Schlussel, autodefinida como "especialista em terrorismo radical islâmico", fez comentários cruéis a respeito do caso. "Ninguém disse pra ela ir lá (Egito). Ela sabia dos riscos. E ela deveria saber que o Islã é assim."

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