Repórter da BBC faz visita inédita a centro espacial da Coreia do Norte

Jornalista participou de grupo que percorreu as instalações da base de lançamento de foguetes do país comunista.

BBC Brasil, BBC

12 de abril de 2012 | 15h33

O repórter da BBC Damian Grammaticas foi um dos primeiros jornalistas estrangeiros a ter acesso ao centro de lançamento de foguetes da Coreia do Norte, apontado por americanos e vizinhos do país comunista como um programa de propulsão de mísseis disfarçado. Os norte-coreanos, por outro lado, alegam que a base está sendo usada exclusivamente para lançar o primeiro satélite do país. Confira o relato.

"Os guardas do lado de fora do centro de lançamento de satélites da Coreia do Norte não sorriem, mas não é de se estranhar, afinal eles nunca viram jornalistas estrangeiros por aqui antes.

O outrora local secreto no interior do país fica a cerca de meia hora da capital Pyongyang. Nos campos cheios de lama da região, soldados cavam hortas com enxadas e agricultores plantam mudas com as próprias mãos.

Ninguém descreveria o centro de controle da missão norte-coreana como imponente. A base fica em um edifício pequeno, de dois andares, pouco chamativo se comparado à sede da Nasa em Houston ou ao comando espacial da Rússia.

E há outra diferença. Bem em frente ao edifício há uma grande jaula, grande o bastante para acomodar um homem, com vários metros de comprimento. Nela, habitam um veado e várias faisões.

Não está claro se esses bichos são mantidos como animais domésticos ou se servirão de banquete para os cientistas espaciais da Coreia do Norte.

Ao subir os degraus da base e passar pelo portão principal, o visitante depara-se imediatamente com uma pintura panorâmica pendurada em uma parede que mostra uma paisagem impressionante e os dois líderes norte-coreanos já mortos - Kim Il-sung e seu filho, Kim Jong-il - apontando, talvez para o futuro.

Abertura inédita

Mas o recluso regime da Coreia do Norte, agora comandado pelo número 3 na dinastia governante, Kim Jong-un, parece iniciar um processo de abertura pela primeira vez.

Assim, nosso grupo de jornalistas foi encaminhado para o centro nervoso do edifício. Lá, 16 técnicos comandam o lançamento do satélite. Vestindo jalecos brancos, como médicos, eles estão sentados diante de telas de computadores.

As imagens em um telão dão pistas sobre o lançamento do satélite e mostram o foguete da Coreia do Norte sendo abastecido. Somos informados de que o satélite que o foguete levará ao espaço já foi acoplado.

Nunca antes o coração do programa espacial da Coreia do Norte foi exposto ao mundo dessa forma.

''Alguns insistem em dizer que nosso programa espacial pacífico é um teste de mísseis'', afirma Paek Chang-ho, chefe do centro de controle de satélites.

''Nós somos adultos - o que estou dizendo (para os Estados Unidos) é que não se metam nos nossos assuntos'', acrescenta.

''Foi por isso que nos os convidamos, para mostrar de forma clara que nosso programa nada mais é do que o lançamento de um satélite, não de um míssil balístico. Espero que vocês nos apoiem em mostrar a transparência de nosso programa de lançamento de satélites'', disse Pake Chang-ho, dirigindo-se aos jornalistas estrangeiros.

Temores

A abertura inédita da Coreia do Norte é uma forma de aplacar temores de que o país estaria prestes a testar uma tecnologia de lançamento de uma ogiva capaz de alcançar até os Estados Unidos.

Os Estados Unidos advertiram que o lançamento seria uma infração às resoluções do Conselho de Segurança da ONU, que impedem a Coreia do Norte de testar tecnologia de mísseis. Se a Coreia do Norte decidir levar um teste adiante, ela poderá sofrer sanções da ONU, afirmam os americanos.

Mas Paek Chang-ho diz que ao repreender os norte-coreanos, os Estados Unidos estão tratando o país como uma criança. ''Nós somos adultos - o que estou dizendo (para os Estados Unidos) é que não se metam nos nossos assuntos'', acrescenta.

A Coreia do Norte não dá sinais de querer perder tal autonomia. Kim Jong-un, que ainda não completou 30 anos, recebeu o título de primeiro secretário do Partido dos Trabalhadores, seguindo os passos de seu e avô, que governaram antes dele.

Enquanto a conferência do Partido dos Trabalhadores era realizada, fomos levados para ver a Universidade Kim Il-sung. Não tenho certeza do porquê de nossos hóspedes do governo norte-coreano terem nos trazido ali.

Eles nos mostraram a piscina, um complexo gigante e novo em folha, cheio de jovens e saudáveis norte-coreanos, nadando para cima e para baixo na piscina olímpica.

Outros estavam se divertindo, deslizando em escorregadores ou recebendo massagens de jatos de água. Havia até mesmo um elevador envidraçado para que o visitante não seja obrigado a subir degraus para alcançar os trampolins mais altos.

Isolamento

Nossos anfitriões também nos mostraram a livraria virtual, onde estudantes estudavam diante de seus computadores, mas sem acesso à internet, conectados apenas à limitadíssima intranet norte-coreana.

Diante de um terminal estava Kim Gwang-hyok, de 31 anos, que estudava a história dos líderes revolucionários da Coreia do Norte. Ele é dois anos mais velho do que o atual líder do país, mas disse confiar e acreditar em Kim Jong-un e ver nele as mesmas qualidades que seu pai e avô.

O jovem Kim Jong-un agora está no comando dos programas de foguete do país e de suas bombas nucleares. Apesar das novas tentativas de abertura, muitos no exterior ainda acreditam que as perspectivas não são animadoras". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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