Repórter diz ter sofrido ameaça de governistas

Dois dias depois de denunciar o número 2 do governo kirchnerista por envolvimento no narcotráfico e em um triplo homicídio, o jornalista Jorge Lanata teve a fachada de seu prédio apedrejada e cápsulas deflagradas de balas foram achadas no local. Segundo o governo, o apedrejamento não seria uma ameaça, como alegou Lanata, mas consequência de uma briga entre indigentes.

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2015 | 02h00

O jornalista reforçou, à noite, que se trata de uma tentativa de intimidação. "A Polícia Federal, que está subordinada a Aníbal Fernández (o chefe de gabinete de Cristina Kirchner denunciado por Lanata) e há 21 anos sem esclarecer o atentado contra a Amia (Associação Mutual Israelita-Argentina) ou 7 meses investigando a morte do promotor (Alberto) Nisman, solucionou em 15 minutos o que ocorreu em minha casa. Suponho que o indigente levava cápsulas de 9 milímetros", escreveu Lanata em uma nota, na qual também agradeceu "a celeridade e a imparcialidade na investigação".

No domingo, o programa Periodismo para Todos exibiu sua entrevista com um condenado à prisão perpétua pelo assassinato de três empresários do ramo farmacêutico. O preso afirmou que Aníbal Fernández controlava o negócio da venda de efedrina e havia ordenado o crime. Na ocasião, Fernández era ministro de Segurança e Justiça.

A testemunha disse ter levado pagamentos de US$ 2 milhões e US$ 3,2 milhões à casa de Fernández. O dinheiro seria parte do lucro com a droga sintética. Em escutas sobre o tráfico feitas então, o elo no governo tinha o apelido de "Morsa". O traço físico mais marcante de Fernández é o bigode.

Lanata comanda as principais investigações jornalísticas contra o governo de Cristina Kirchner.

"Se o preso mentiu, que tenha um castigo. Mas, se não, que a culpa recaia sobre Fernández", disse. "Esse é um assunto muito mais grave que a corrupção. Nos últimos anos o narcotráfico se instalou em todo o país. Na Província de Buenos Aires, é mais grave."

Divisão peronista. A acusação dividiu o kirchnerismo às vésperas da primária que no domingo definirá quais candidatos disputarão a eleição de outubro.

Fernández afirmou que integrantes de seu partido financiaram a denúncia para afastá-lo da luta pelo governo da Província de Buenos Aires. Seu adversário pela nomeação é o presidente da Câmara dos Deputados, Julián Domínguez. "O fato de Aníbal (Fernández) ser vítima de uma operação de imprensa não o habilita a me acusar", disse Domínguez na segunda-feira. Horas depois, ele participou de um número num programa semelhante à Dança dos Famosos, o que irritou ainda mais Fernández. Ontem de manhã, o ministro afirmou que o companheiro de partido estava festejando.

Quem vencer a primária será o favorito para assumir o comando da província, que tem 37% dos eleitores do país. O ganhador sucederá a Daniel Scioli, candidato único do kirchnerismo à presidência. Com a briga interna, ele desistiu de participar dos últimos comícios dos dois pré-candidatos a substituí-lo.

 

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