Bryan Denton/The New York Times
Bryan Denton/The New York Times

Repórter do NYT sobrevive a ataque a comboio em Mossul e relata experiência

Em um relato para o jornal americano, ele conta que o comboio em que estava com um repórter iraquiano e uma equipe de jornalistas britânicos já havia sido alvo de ataques com carros-bomba três vezes

O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2016 | 05h00

O fotógrafo do The New York Times Bryan Denton foi ferido no pulso enquanto acompanhava um grupo militar antiterrorista do Iraque que seguia para Mossul na semana passada. Em um relato para o jornal americano, ele conta que o comboio em que estava com um repórter iraquiano e uma equipe de jornalistas britânicos já havia sido alvo de ataques com carros-bomba três vezes. O quarto ataque provocou uma grande explosão, e um dos estilhaços de bomba cortou seu pulso.

Na manhã da quinta-feira 20, a unidade de elite que atua contra o grupo Estado Islâmico (EI) que o repórter acompanhava começou os primeiros movimentos de uma batalha mais ampla para tomar de volta a cidade de Mossul do grupo jihadista. O veículo militar MRAP em que Bryan estava liderava o comboio, que seguiria para o leste ao longo da rodovia principal que liga a capital curda Erbil a Mossul.

O primeiro grande objetivo era cercar e limpar Bartella, uma cidade militante cerca de 10km a leste das fronteiras da cidade iraquiana. “Eu estava nervoso, mas não havia tempo para parar e descobrir como trocar e ir para os veículos que estavam atrás de nós”, disse. Sem ter ido muito longe, eles começaram a ser atingidos de diferentes direções.

Ao sair da estrada para garantir o mínimo de segurança em campo aberto, acompanhado de um tanque M1A1 Abrams e indo a menos de 10km/h, o carro ficou sob ataque de metralhadoras. Porém, os combatentes do Estado Islâmico atiravam de posições escondidas. “As balas levantaram poeira ao redor do nosso comboio e atingiram todo o exterior e vidros do carro, deixando rachaduras nas janelas”, diz Bryan.

Fuga. O fotógrafo conta que morteiros colidiram ao redor deles, os militares procuraram uma brecha entre os veículos para se esconder, mas sem sucesso. O comandante do veículo militar, tenente Muhammad Altimimi, apontava repetidas vezes para prédios e as sombras de combatentes islâmicos se movendo em pontos ocultos fez com que o tanque Abrams e um trator seguissem à frente deles.

O trator foi retirando parte do pavimento para que o comboio pudesse atravessar a estrada, mas logo eles ficaram presos em uma vala cavada pelo EI com esse objetivo. Era preciso que o trator preenchesse a trincheira com terra. Neste momento, Bryan conta que a chegada do primeiro carro-bomba foi anunciada pelo som de metralhadoras e veículos que lançavam granadas automaticamente. Enquanto esperavam o trator completar a vala, eles tiveram de sair do MRAP em um campo, quase 275 metros longe dos prédios da cidade.

O carro-bomba alcançou velocidade na descida, tentou sair da estrada em direção a um conjunto de veículos logo atrás deles, mas pelo peso das chapas de aço e pela carga explosiva, o carro deslizou pelo campo, atingiu uma pequena vala e capotou. “Eu fotografei quando os iraquianos saíram do veículo, posicionado como uma tartaruga virada no campo, até que ocorreu uma grande explosão, levantando pó ao nosso redor”, diz Bryan.

Depois que a trincheira foi completada, eles voltaram para o caminho, mas assim que começaram a manobra, o comboio começou a ser atacado. As balas atingiram novamente o tanque. O pneu dianteiro do lado direito foi atingido, mas a tropa continuou dirigindo, fazendo o balanço do veículo ficar mais intenso à medida que passavam pelo terreno irregular.

Seguindo o tenente Altimimi, um comboio mais atrás havia destruído outro carro-bomba e uma coluna de fumaça e poeira pairava no céu. Em seguida, eles avistaram uma caminhonete estacionada nas sombras de um beco, entre um conjunto de prédios vizinhos, e pararam. De repente, um veículo diferente saiu de trás dos prédios em direção a eles.

O motorista do tanque, em pânico, tentava manobrar o carro danificado mais para trás. Bryan disse que o carro-bomba parecia preso em uma vala, a cerca de 55 metros deles. Um tanque iraquiano se moveu ao lado deles e teve abertura para atirar. “O veículo suicida explodiu e a onda do choque balançou nosso carro. Todos dentro do carro aplaudiram.” depois disso, eles chegaram à estrada principal Erbil-Mossul que levava para o oeste de Bartella.

Com o pneu direito da frente quase destruído, a tropa praticamente não podia se mover. Os técnicos de remoção de munições trabalharam junto com a escavadeira, o tanque e alguns Humvees. A apenas umas centenas de metros dali, a equipe retirou quatro grandes dispositivos de explosão enquanto os combatentes do Estado Islâmico continuavam atirando contra o comboio. Os iraquianos responderam com lançadores de granadas e outras armas montadas nos tanques.

Ferimentos. Depois que o tiroteio parou e as forças iraquianas tinham limpado a área e estabelecido um perímetro de segurança, com um acostamento de terra para bloquear a estrada principal, Bryan decidiu descer do tanque para fotografar. Quando ele estava voltando para o veículo, alguém gritou em árabe: “Carro-bomba!”. Ao se virar, ele viu o veículo, coberto de placas de aço, indo em direção a eles.

Como todo mundo começou a correr, e os soldados abriram as portas do veículo, Bryan diz que o único pensamento que teve foi se abaixar e encontrar cobertura. “Eu fiquei desprotegido por quatro ou cinco segundos, mas foi tempo demais.” A explosão foi enorme e ele sentiu algo batendo em seu pulso direito, mas não sentiu dor. 

O fotógrafo olhou para o pulso e viu um osso através de um corte profundo cheio de sangue. Ele pôs a mão em cima para fazer pressão. “Uma parte de mim queria mover os dedos para ver se o pulso mexia, mas existia a preocupação com a possibilidade de um novo ataque”, diz. Outro soldado iraquiano foi até ele em meio a fumaça e poeira, tirou um dos torniquetes que estavam no colete de Bryan e tentou colocar em seu braço. Bryan voltou para o tanque, onde um dos jornalistas britânicos o ajudou fazendo uma bandagem de compressão para estancar o sangue.

“Tive muita sorte e a ferida parecia pior do que era”, disse. Não havia estilhaços dentro do corte nem ligamentos ou tendões rompidos. Mais tarde naquela noite, em Erbil, um raio X não deu sinais de ossos quebrados. “Era difícil não pensar sobre o que tinha acontecido. Uma pequena possibilidade pior poderia ter mudado tudo: se os estilhaços tivessem pegado um pouco mais para a esquerda, eu teria perdido minha mão direita ou ficado sem movimentos.” /NYT

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