Repórteres do 'Le Monde' filmam uso de armas químicas na guerra civil síria

Uma reportagem publicada ontem pelo jornal francês Le Monde ampliou as evidências de que o regime de Bashar Assad usa armas químicas para combater os rebeldes sírios que avançam na periferia da capital, Damasco. Infiltrados entre os dissidentes durante dois meses, um repórter e um fotógrafo foram testemunhas de intoxicações após a explosão de granadas disparadas por peças de artilharia.

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2013 | 02h06

A reportagem foi publicada horas antes de a União Europeia levantar parcialmente seu embargo de armas à Síria. A medida tomada em Bruxelas abre caminho para que potências europeias, sobretudo França e Grã-Bretanha, enviem armamento à oposição síria. "Nossa decisão envia uma mensagem clara a Assad", disse o premiê britânico, David Cameron.

Os repórteres do Le Monde permaneceram entre abril e maio em Jobar, às portas de Damasco, onde rebeldes ligados ao Exército Sírio Livre (ESL) desafiam o regime. Os ataques, segundo o jornal, atingiram o epicentro da resistência rebelde, o bairro de Bahra 1, onde atua a brigada Tahrir al-Sham.

Os primeiros casos de intoxicação foram flagrados ainda em abril, "sem odor e sem fumaça", nem identificação do produto químico que teria sido lançado. Rebeldes manifestaram sintomas após detonações. "Os homens tossem violentamente. Os olhos ardem, as pupilas se retraem ao extremo, a visão se obscurece", escreveu Jean-Philippe Rémy, repórter do jornal. "Logo, ocorrem as dificuldades respiratórias, às vezes agudas, os vômitos, os desmaios. É preciso retirar os combatentes mais atingidos antes que eles sejam sufocados."

Para resistir, os rebeldes contam apenas com "um punhado de máscaras antigás", além de máscaras cirúrgicas, cujo efeito prático é quase nulo. Nos primeiros dias em Jobar, ao menos um rebelde morreu em razão da intoxicação.

"A gravidade dos casos, sua multiplicação, a tática do uso de tais armas mostra que não se trata de um simples gás lacrimogêneo utilizado nas frentes de batalha, mas de produtos de outra classe, bem mais tóxicos", descreve a reportagem.

Os ataques foram tão frequentes, segundo o texto, que o fotógrafo Laurent Van Der Stockt também sentiu os efeitos. "Durante quatro dias, ele sofreu distúrbios de visão e respiratórios. Nesse dia, porém, as emanações de gás tinham se concentrado em um setor vizinho", conta Rémy.

Além das próprias experiências e do depoimento dos rebeldes, o jornal Le Monde traz a palavra de médicos que apoiam o exército revolucionário. Hassan O. descreveu os sintomas mais comuns: "Eles (os pacientes) não ouvem mais nada, não falam mais, seus músculos respiratórios ficam inertes. Se não os tratamos com toda a urgência, é a morte", afirmou o médico, que usa um antídoto para o gás sarin para tratar os pacientes. Ainda ontem, uma repórter da TV estatal síria, Yara Abbas, morreu em meio aos combates em Qusayr, perto do Líbano.

Conferência. Em Bruxelas, chanceleres dos 27 países da União Europeia decidiram suspender parte do embargo de armas à Síria, mas manter as sanções econômicas ao regime de Assad. França e Grã-Bretanha querem a autorização europeia para enviar armas aos rebeldes.

Fora do evento, o ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, disse que não considera a reportagem como uma prova cabal do uso de armas químicas por Assad, mas afirmou que, cada vez mais, as suspeitas se fortalecem. "Existem evidências cada vez mais concretas do uso localizado de armas químicas", disse o chanceler. "Elas precisam de verificações mais precisas e nós as estamos fazendo."

À noite, Fabius recebeu, em Paris, em reunião fechada, o secretário de Estado americano, John Kerry, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, para debater a conferência de Genebra que tentará um acordo para acabar com a guerra civil na Síria.

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