Represa que divide Coréias é monumento da Guerra Fria

Dois países definem seu futuro em reunião de cúpula no início de outubro

Choe Sang-hun, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2002 | 00h00

Em 1986, quando a Coréia do Sul se preparava para a Olimpíada de Seul, em 1988, soldados norte-coreanos iniciaram a construção de uma gigantesca represa um pouco ao norte da Zona Desmilitarizada. Enquanto os sul-coreanos se perguntavam o que pretendiam seus vizinhos comunistas, o líder da Coréia do Sul, Chun Doo-hwan, deu sua versão: eles queriam inundar o Sul.Em resposta ao que foi chamado de ''''pânico da bomba de água'''', a Coréia do Sul resolveu construir um paredão defensivo contra a ameaça. Hoje, a ''''Represa da Paz'''' - iniciada em 1987, abandonada no meio do caminho e completada em 2005 - é um monstro de concreto com 590 metros de extensão e 123 de altura. Não há nenhum reservatório. A única função da barragem é conter um possível dilúvio provocado pela represa de Imnam, na Coréia do Norte.''''Assim como as duas Coréias, as duas represas são irmãs gêmeas, nascidas ao mesmo tempo, separadas pela Zona Desmilitarizada'''', disse Lee Tae-ik, um funcionário da Korea Water Resources Corp., que faz a conservação da represa sul-coreana. A Represa da Paz tornou-se um monumento de US$ 429 milhões à política da península dividida.Ela evoca o desafio que o presidente Roh Moo-hyun, da Coréia do Sul, enfrentará numa reunião de cúpula entre os líderes das duas nações, de 2 a 4 de outubro, em Pyongyang, a capital da Coréia do Norte. Na reunião, Roh pretende negociar com o líder máximo norte-coreano, Kim Jong-il, o fim das tensões ao longo da fronteira de 240 quilômetros em troca de incentivos econômicos.Em Hwacheon, o desejo de paz sul-coreano e as manifestações de hostilidade intercoreana manifestam-se como em nenhum outro lugar. ''''Com 24 mil civis contra 36 mil soldados, somos o condado mais militar da Coréia do Sul'''', disse Choi Moon-soon, funcionário de Hwacheon. ''''As pessoas daqui são muito anticomunistas.''''A paisagem de Hwacheon é pontilhada por minas terrestres, armadilhas para tanques e monumentos construídos em alguns dos locais de combate mais sangrentos da Guerra da Coréia. Os moradores ainda se recordam de quando comandos do Norte cruzaram a fronteira, em 1992, matando três soldados sul-coreanos antes de retornar.Alguns quilômetros a noroeste, uma estrada asfaltada cruza postos militares, que exibem cartazes onde se lê: ''''Se lutarmos, venceremos.'''' A via termina abruptamente na fronteira da Zona Desmilitarizada. Ali, uma força militar de 2 milhões de soldados, em ambos os lados da fronteira, preparados para recomeçar a guerra suspensa por uma trégua em 1953.Quando a guerra parou, os dois lados concordaram com a criação de uma zona desmilitarizada de 4 quilômetros de largura. ''''Se o inimigo chegar a 50 metros da linha da fronteira, dentro da Zona Desmilitarizada, nós advertimos três vezes'''', disse o capitão Kwon Seong-ho. ''''Se o inimigo pisar na linha de fronteira, disparamos tiros de advertência. Se ele cruzar a linha, temos licença para matar.''''A ''''ofensiva da água'''' jamais aconteceu. O Norte usou a Represa de Imnam apenas para redirecionar a água para uma usina hidrelétrica em sua costa leste. A Represa da Paz tornou-se um símbolo da histeria da Guerra Fria. Depois, no começo de 2002, alguns meses antes da final da Copa do Mundo de futebol, imagens de satélite revelaram rachaduras na mal construída represa norte-coreana.''''De repente, uma paredão imenso de água lamacenta e pedaços de gelo despencou do Norte'''', disse Choi, funcionário em Hwacheon. O Norte consertou a represa, mas a Coréia do Sul retomou a construção de sua barragem, completando-a em 2005.Uma das questões que devem ser discutidas pela cúpula Norte-Sul é a partilha da água. A barragem de Imnam reduziu em 12% o fluxo do Rio Han, ameaçando seu ecossistema e contribuindo para a escassez de água na região metropolitana de Seul. Alguns sugerem que a Coréia do Sul feche as quatro eclusas da Represa da Paz para encher o reservatório com água potável, mas isso poderia causar uma inundação no lado norte-coreano. A Represa da Paz, como sua correspondente do Norte, mas de forma diferente, também poderia ser uma arma potente.''''Quando a paz finalmente chegar à Coréia, a Represa da Paz funcionará como uma represa normal'''', diz um vídeo promocional. Até lá, a represa fica aqui, sofrendo silenciosamente o ônus da divisão nacional.

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