Represália a artistas mostra jogo duro da campanha nos EUA

Na semana passada, a atriz Whoopi Goldberg teve seu contrato de publicidade cancelado pela empresa Slim Fast depois de ter usado o microfone durante um comício em Nova York do senador democrata John Kerry, o rival de George W. Bush na disputa pela Casa Branca, em novembro, para esculhambar o presidente americano, apelando até mesmo para piadas de mau gosto. Interessada em vender suas poções milagrosas ao gordíssimo mercado americano, independentemente das preferências ideológicas dos consumidores, a Slim Fast decidiu que a atitude de Whoopi e, talvez, a baixaria que ela cometeu ao relacionar o nome "bush" aos pêlos pubianos numa das piadas, era incompatível com a imagem que a empresa deseja projetar e suspendeu o contrato da comediante negra. Como nem Whoopi cessará os ataques a Bush nem os americanos deixarão tão cedo de necessitar de produtos dietéticos, o caso não deverá ter mais conseqüências. Mas ele foi imediatamente apresentado pelo comando republicano como prova de que, ao aceitar o endosso de uma artista desbocada como Whoopi Goldberg, Kerry mostrou uma vez mais que é "um liberal de Massachusetts" mais afeito aos "valores de Hollywood" do que aos "valores tradicionais" da sociedade americana. O argumento republicano fez efeito. Na quarta-feira da semana passada, um grupo de defesa dos direitos dos homossexuais, que apóia Kerry, retirou o convite à comediante Margaret Cho para um evento em Boston que ocorrerá paralelamente à convenção do Partido Democrata, na próxima semana. O episódio que envolveu a cantora pop Linda Ronstadt no último fim de semana foi mais grave e ilustrou o clima envenenado da campanha eleitoral americana. No final de um show no cassino Aladdin, em Las Vegas, Linda dedicou um de seus sucessos, a música Desperado, a Michael Moore, o inococlasta diretor do documentário Fahrenheit 9/11, um virulento manifesto anti-Bush que é o grande evento cultural da contenda pela Casa Branca e até ontem havia arrecadado US$ 94 milhões nas bilheterias - um recorde absoluto para o gênero. A homenagem de Linda, que chamou o cineasta de "grande patriota" e "alguém que está espalhando a verdade", ofendeu alguns espectadores não identificados. Numa reação atípica, que pode ter sido orquestrada, eles jogaram copos no palco e conseguiram interromper o espetáculo antes de abandonar o recinto. "Foi uma cena muito feia", disse o dono do cassino, Bill Timmins, para explicar sua decisão de rescindir o contrato com a artista. "Enquanto eu estiver aqui, ela não cantará." O sucesso do filme de Moore, que continuava ontem a ser exibido em 2 mil salas em todo o país, preocupa a campanha de Bush.De acordo com um levantamento feito pelo Gallup, 8% dos americanos adultos já assistiram ao ácido documentário, e 18% disseram que têm planos para fazê-lo. Esses números sugerem que o filme já alcançou uma parcela do grande público, além da base democrata. Assessores republicanos, como Scott Reed, admitem que, na medida em que mobilizar eleitores jovens e independentes contra Bush em Estados-chave, Fahrenheit 9/11 pode ajudar a determinar o resultado da eleição. "Eu não estou certo de que o filme influencie os eleitores, mas se influenciar 3% ou 4%, será um sucesso político", disse Reed.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.