AP Photo/Sidali Djarboub
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Representante da ONU diz que violações na Venezuela sugerem 'crimes contra humanidade'

Zeid Al Hussein pediu a criação de uma investigação internacional contra Nicolás Maduro; ele teme que 'as tensões no país sejam aprofundadas'

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2017 | 08h12
Atualizado 11 Setembro 2017 | 14h45

GENEBRA - O alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Zeid Al Hussein, sugeriu que o governo de Nicolás Maduro pode ter cometido “crimes contra a humanidade”. Em um discurso na manhã desta segunda-feira, 11, em Genebra, o principal representante das Nações Unidas para direitos humanos atacou Caracas e pediu que se crie uma investigação internacional contra o governo venezuelano.

Essa é a primeira vez que um representante da ONU aponta para tal dimensão dos crimes cometidos na Venezuela. Hussein lembra que, em uma recente apuração realizada por seu escritório, o governo chavista foi acusado de “uso excessivo da força” e “várias outras violações de direitos humanos”. 

“Minha investigação sugere a possibilidade de que crimes contra humanidade possam ter sido cometidos, o que apenas pode ser confirmado por uma investigação criminal subsequente”, disse ele.

Segundo Hussein, ainda que a ideia de uma Comissão Nacional da Verdade seja um conceito que ele apoie, o modelo proposto na Venezuela é "inadequado". "Peço ao Conselho de Direitos Humanos que instaure uma investigação internacional sobre as violações na Venezuela."  

A recomendação será examinada pela entidade em Genebra. Contudo, Caracas promete reunir seus aliados para frear a proposta. Nesta segunda-feira, o governo de Maduro reuniu governos de países em desenvolvimento para pedir ajuda e fechar um compromisso para que tal ideia não fosse aprovada. 

Para Hussein, existe “um perigo real de que as tensões sejam aprofundadas”. Ele acusa Maduro de estar “esmagando instituições democráticas e vozes críticas, inclusive por meio de processos criminais contra líderes da oposição, prisões arbitrárias e, em alguns casos, tortura”. “A Venezuela é membro do Conselho e, como tal, tem um dever especial em promover e proteger os direitos humanos”, alertou.

Acusações

Em resposta, o chanceler venezuelano, Jorge Arreaza, acusou a ONU de apresentar “falsas acusações” contra seu governo e de estar “usando os direitos humanos como instrumento político”. 

Arreaza apontou que Hussein estaria sendo “seletivo” ao destacar os crimes em Caracas e alertou que sua investigação “não tem rigor metodológico”. “Esses relatórios são feitos para disturbar a paz e a estabilidade”, disse. “Exigimos que ele pare de nos agredir e de publicar relatórios permeados de mentiras." Para ele, a ONU atende a “interesses de potências imperialistas”. 

Provocando comentários entre diplomatas, o chanceler insistiu que reina na Venezuela “a maior absoluta paz” e “100% da população tem cobertura de saúde”. “Ninguém e nada nos pode parar."

O ministro também usou o palanque da ONU para denunciar “o imperialismo moderno dos EUA” e o envolvimento de Washington na tentativa de frear Maduro. 

O governo americano rebateu as afirmações e acusou o chanceler de estar tentando “desviar a atenção da ruptura da ordem constitucional na Venezuela e de sua repressão”. Washington ainda “incentivou a comunidade a internacional a usar a oportunidade para condenar Maduro”. Para a Casa Branca, atual Assembleia Constituinte é “ilegítima”. 

Na avaliação do governo americano, o discurso do chanceler é “um retrato fictício” da Venezuela. “Ter o chanceler venezuelano discursando no Conselho é zombar da instituição”, declarou Nikki Haley, embaixadora dos EUA na ONU. 

Uma declaração de 116 ONGs ainda pediu que a Venezuela seja suspensa do Conselho de Direitos Humanos.  Numa reunião na ONU, porém, o governo venezuelano impediu a entrada da imprensa internacional no debate entre Caracas e governos de países aliados. Os únicos jornalistas autorizados a entrar foram aqueles credenciados pelo próprio governo venezuelano. 

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