Repressão a ato pró-democracia mata ao menos 160 na Guiné

Polícia abre fogo contra manifestantes em estádio; número de feridos pode chegar a 1.250

Efe, Reuters e Associated Press,

29 de setembro de 2009 | 09h21

Reprodução de vídeo mostra manifestantes entrando no estádio na segunda-feira. Foto: Reuters

 

CONACRI - A repressão a um protesto na Guiné pela volta da democracia deixou ao menos 160 mortos na segunda-feira, afirmaram grupos de direitos humanos nesta terça-feira, 29. Thierno Maadjou Sow, presidente da Organização para Direitos Humanos da Guiné, afirmou à Reuters que o número tem como base dados oferecidos por hospitais em Conacri e que não inclui corpos ainda não entregues. Ele estimou que cerca de 1.250 pessoas foram feridas pela onda de violência.

 

 

Aos 157 mortos na segunda-feira durante a operação policial, se unem outros três, baleados hoje pelas forças de segurança, segundo informaram emissoras de rádio regionais captadas em Dacar.

A comunidade internacional condenou veementemente a violência: a Comunidade Econômica dos Estados de África Ocidental (Cedeao), a União Africana (UA), a Onu, a União Européis. A França, antiga potência colonial na Guiné. Paris anunciou também a imediata suspensão da cooperação militar. A pedido da França, a União Europeia (UE) se reunirá amanhã em Bruxelas para estudar medidas complementares, especialmente individuais, que poderiam ser tomadas de forma rápida.

 

A manifestação da oposição, realizada no principal estádio de futebol da capital, reuniu aproximadamente 50 mil pessoas no estádio "28 de setembro", até que as forças de segurança começaram a lançar bombas de gás lacrimogêneo e a disparar contra os manifestantes. Entre os feridos estão dois ex-ministros e líderes da oposição, Cellou Dalein Diallo e Sidya Touré, cujas casas também foram saqueadas pelos militares.

 

Automóveis incendiados eram observados nas ruas de Conacri na manhã desta terça-feira, enquanto moradores temerosos não deixavam suas casas e soldados cheirando a álcool caminhavam pela capital. Pelo menos duas delegacias de polícia foram incendiadas, após a explosão de violência.

 

 

Visualizar Conakry em um mapa maior

O líder militar do país, capitão Moussa "Dadis" Camara, que tomou o poder em dezembro em um golpe de Estado, disse na noite de segunda-feira a uma rádio francesa que o tiroteio foi causado por membros da guarda presidencial. Segundo ele, porém, o incidente estava fora de seu controle. "Essa gente que cometeu essas atrocidades foram elementos incontroláveis no Exército", afirmou Camara à Radio France International. "Inclusive eu, como chefe de Estado nesta situação tão tensa, não posso pretender ter controle sobre esses elementos no Exército."

 

A Comissão da União Africana condenou os "disparos indiscriminados sobre civis desarmados". A União Africana suspendeu Guiné da entidade após Camara tomar o poder. Vários políticos foram presos na segunda-feira, entre eles o líder opositor Sidya Toure, liberado nesta terça-feira. Toure disse que sua casa foi destruída.

 

Camara tomou o poder em um golpe horas após a morte do ditador Lansana Conté. Camara disse inicialmente que não participaria de uma eleição, mas recentemente afirmou que tinha o direito de fazê-lo, caso quisesse. Os manifestantes temem que o país siga sem democracia.

 

O líder oposicionista Mutarr Diallo afirmou ter testemunhado estupros cometidos por soldados com seus rifles. Diallo foi preso na segunda-feira, mas liberado no dia seguinte. A organização humanitária Human Rights Watch afirmou que testemunhas relataram que soldados despiram e estupraram mulheres nas ruas de Conacri na segunda-feira.

 

Punição

 

O ministro de Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, afirmou que seu país está suspendendo a cooperação militar com a Guiné. Em comunicado, Kouchner disse ainda que Paris está reavaliando o auxílio que envia ao país africano.

 

Desde tornar-se independente da França há meio século, Guiné segue como um país miserável. Os 10 milhões de habitantes desta nação do oeste africano estão entre os mais pobres do mundo, mesmo vivendo em um solo rico em diamantes, ouro, ferro e metade das reservas mundiais de matérias-primas para a produção de alumínio.

 

(Matéria alterada às 20h com novas informações)

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