REUTERS/Francis Mascarenhas
REUTERS/Francis Mascarenhas

Repressão a atos na Índia deixa 3 mortos

Biógrafo de Gandhi e outros intelectuais são presos com outras mil pessoas em protesto contra lei de cidadania que veta muçulmanos 

Estadão, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 08h00

NOVA DÉLHI - A violenta repressão aos protestos contra uma lei que discrimina muçulmanos vem afetando a imagem da Índia, arranhando a reputação da maior democracia do mundo. Mesmo proibidas, manifestações ocorreram na quinta-feira, 19, nas principais cidades do país. Os confrontos com a polícia deixaram três manifestantes mortos. As autoridades cortaram a internet e prenderam mais de mil pessoas, incluindo intelectuais.

Desde o início da onda de protestos, nove pessoas morreram – a maioria a tiros disparados pela polícia. No dia 11, o Parlamento indiano aprovou uma nova lei que permite conceder cidadania para os imigrantes de alguns países vizinhos ou próximos da Índia, nas apenas se eles forem hindus, cristãos, budistas, sikhs, parsís ou jainistas – em resumo, seguidores de qualquer religião importante do sul da Ásia, exceto o islamismo.

O Partido Bharatiya Janata (PBJ), do primeiro-ministro nacionalista Narendra Modi, diz que o objetivo da nova lei é proteger imigrantes que fogem de perseguição religiosa. Como o islamismo é a religião dominante em Bangladesh, Paquistão e Afeganistão, não havia razão para incluir os muçulmanos no texto. A justificativa, porém, não convenceu os opositores e os grupos de ativistas dos direitos humanos.

Os críticos afirmam que os muçulmanos são minoria e igualmente perseguidos no Tibete, Sri Lanka e Mianmar, também vizinhos ou próximos da Índia. O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos classificou a lei de “fundamentalmente discriminatória”. Internamente, a mudança também foi mal recebida.

Defensiva.

Os 200 milhões de muçulmanos da Índia, uma minoria em meio a uma população de 1,3 bilhão, formam uma das maiores comunidades muçulmanas do mundo e enfrentam uma campanha cada vez mais intensa de abuso e discriminação, sob a supervisão de Modi.

Embora o premiê tenha negado qualquer viés antimuçulmano, seu partido defende uma Índia como pátria dos hindus, que compõem cerca de 80% da população. Muitos membros do PBJ, incluindo funcionários de alto escalão, fizeram comentários racistas sobre muçulmanos.

Ontem, o ministro do Interior, Amit Shah, braço direito de Modi, admitiu rever alguns portos da lei, que já deixou quase 2 milhões de apátridas em um Estado no nordeste da Índia. Shah disse que o objetivo do governo é expulsar imigrantes ilegais de Bangladesh.

Mas não são apenas os muçulmanos que protestam. Muitos indianos progressistas também criticam a lei que seria, segundo eles, um passo perigoso para marginalizar uma comunidade já temerosa e uma violação flagrante do longo compromisso da Índia com o secularismo e a igualdade, consagrados em sua Constituição.

Ontem, apesar da repressão, os protestos continuaram. O governo cortou a internet em partes de Nova Délhi e no Estado de Uttar Pradesh, onde vivem muitos muçulmanos. Estradas que dão acesso à capital foram bloqueadas e pelo menos 14 estações de metrô fecharam as portas. A polícia proibiu manifestações em várias partes do país – sem sucesso.

Prisões.

Em Bangalore, até um conhecido biógrafo de Mahatma Gandhi foi preso. Ramachandra Guha, que é um crítico da lei de cidadania, estava conversando com um repórter quando policiais o agarraram pelos braços e o arrastaram para longe. Tudo foi gravado em vídeo.

“Nosso protesto é totalmente não violento”, disse Guha, segundos antes de ser detido. “Veja o que está acontecendo. Você vê que somos totalmente pacíficos. Você viu alguma violência?” Guha foi colocado em um ônibus lotado de presos, que foram confinados em um ginásio. No fim do dia, o escritor foi libertado.

Em Nova Délhi, manifestantes reuniram-se no histórico Forte Vermelho e gritaram palavras de ordem. “Queremos liberdade!” Em Calcutá, 17 partidos de oposição protestaram contra a violência política. Em Mumbai, a manifestação ganhou a adesão de atores de Bollywood – a gigantesca indústria do cinema indiano. “A hora de protestar apenas pelas redes sociais acabou”, disse o ator Farhan Akhtar. / NYT - TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Tudo o que sabemos sobre:
Índia [Ásia]protesto

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.