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Repressão a manifestações contra Kadafi deixa mais de 230 mortos

Forças de segurança abrem fogo contra manifestantes que participavam do funeral das vítimas de sábado na cidade de Benghazi e médico diz que somente ontem recebeu mais de 50 corpos; segundo testemunhas, policiais e soldados começam a aderir a protestos

, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2011 | 00h00

CAIRO

Milhares de líbios voltaram ontem a desafiar o regime do coronel Muamar Kadafi, apesar da feroz repressão que deixou mais de 230 mortos, e tomaram as ruas de Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia. Forças de segurança dispararam contra uma multidão que deixava o funeral de manifestantes mortos no sábado pelas forças do governo e mercenários estrangeiros leais a Kadafi, matando 50 pessoas.

À noite, circularam informações não confirmadas de que Kadafi teria deixado a Líbia e estaria seguindo para a Venezuela ou o Brasil. O Itamaraty disse não ter nenhuma informação sobre a notícia e fontes na Venezuela desmentiram que o líder líbio estaria indo para o país. Em uma aparição na TV, um dos filhos de Kadafi, Saif al-Islam, afirmou que seu pai continua na Líbia e tem o apoio do Exército.

Ele também advertiu que o país esta à beira de uma guerra civil, pois manifestantes tomaram tanques e armas dos quartéis, e disse que a violência é resultado de um "complô estrangeiro". "Destruiremos os elementos da sedição", disse, prometendo uma Constituição e novas leis liberais. "O Exército terá agora um papel essencial para impor a segurança, pois é a unidade e estabilidade da Líbia que está em jogo", acrescentou. Ele admitiu que o Exército cometeu erros, mas disse que o número de mortos está sendo exagerado.

Os protestos contra Kadafi, há 42 anos no poder, são similares aos que tomaram conta da região depois que manifestações populares conseguiram depor os presidente do Egito e da Tunísia, mas estão sendo reprimidos com maior violência.

O Departamento de Estado dos EUA disse ter informações confiáveis de que há "centenas de mortos e feridos" na Líbia e pediu às autoridades de Trípoli que autorizem as manifestações pacíficas. A ONG Human Rights Watch informou ontem que pelo menos 233 pessoas morreram desde quarta-feira.

Um médico do hospital Al-Jalae, o principal de Benghazi, disse que já tinha recebido 209 corpos. Habib al-Obaidi, chefe da UTI, afirmou que somente ontem à tarde chegaram 50 corpos, a maioria com ferimentos a bala. Os líbios qualificaram de "massacre" a repressão aos protestos.

A rebelião da população frustrada com o governo autoritário de Kadafi espalhou-se por várias cidades da Líbia e ontem chegou a Trípoli, onde à noite foram ouvidos intensos tiroteios, mas Benghazi tornou-se o palco dos principais protestos. Segundo testemunhas, a situação é caótica na cidade e até um carro-bomba teria sido detonado diante de um quartel. Os jornalistas não podem trabalhar livremente e as informações vêm sendo obtidas por telefone. Vídeos e mensagens vinham sendo postados na internet, mas o serviço foi cortado no sábado, assim como a energia elétrica.

As ruas foram tomadas pela população após os militares se recolherem ao Centro de Comando. Testemunhas disseram que soldados e policiais juntaram-se aos protestos. O advogado Mohamed Al-Mana afirmou à Reuters que membros de um esquadrão especial do Exército chegaram ao hospital com soldados feridos durante confronto com a guarda pessoal de Kadafi. O representante da Líbia na Liga Árabe, Abdel Moneim al Honi, deixou o cargo para se unir à revolução e "protestar pela violência contra os manifestantes".

Prédios do governo foram incendiados pela população, enfurecida com a brutal repressão e frustrada com o governo da Líbia, país que, apesar de sua grande reserva de petróleo, tem graves problemas sociais.

Críticas. Os EUA, a União Europeia e a Liga Árabe manifestaram ontem sua preocupação e pediram ao regime líbio que ponha fim à violenta repressão.

A responsável pela política externa da União Europeia, Catherine Ashton, manifestou sua preocupação e condenou o uso da força. A Líbia ameaçou ontem deixar de cooperar com a UE com relação à imigração se seus representantes, uma referência a Ashton, não deixarem de fazer comentários sobre os protestos.

Na Itália, deputados de oposição criticaram o premiê Silvio Berlusconi por não condenar a violência na Líbia. O governo de Berlusconi, que corteja os petrodólares da Líbia e estendeu o tapete vermelho a Kadafi nas várias vezes que ele visitou a Itália, não fez nenhum comentário sobre os protestos.

Questionado no sábado sobre se tinha falado com Kadafi, Berlusconi declarou que a situação ainda está em curso e ele não queria perturbar ninguém. / AP, REUTERS e AFP

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