Daniel Ochoa de Olza/AP
Daniel Ochoa de Olza/AP

Repressão cria êxodo de milhares da Líbia

Mais de 15 mil pessoas já teriam deixado o país pela fronteira com a Tunísia; UE manda navios de guerra para preparar retirada de 10 mil

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2011 | 00h00

Em três dias, mais de 15 mil pessoas, entre líbios, tunisianos, egípcios e sírios, já deixaram a Líbia por Ras Jdir, o maior posto de fronteira do país. Carregando malas, cobertores, utensílios domésticos e até eletrônicos, homens, mulheres e crianças fogem do conflito e das ameaças de guerra civil feitas pelo ditador Muamar Kadafi. No aeroporto de Trípoli, mais de 10 mil pessoas tentam lugares nos voos para deixar o país.

O fluxo de refugiados obrigou organizações não governamentais e países como a Tunísia a prepararem hospitais da campanha na expectativa de que o regime produza uma carnificina nos próximos dias.

A cada dia, cerca de 5 mil pessoas cruzam a fronteira em Ras Jdir. Os que partem da Líbia são obrigados a passar por dezenas de postos de controle, nos quais têm seu dinheiro roubado, celulares apreendidos ou chips destruídos. Máquinas fotográficas e computadores são confiscados.

"Deixei o país para encontrar a liberdade. Mas eu e minha família morreremos por ela, se for necessário retornar", afirmou ao Estado Omar Mohamed Chebli, executivo líbio de 42 anos que atravessou a fronteira com um carro e poucos pertences. "Em Trípoli e muitas cidades, há fogo por todo lado. Muitas pessoas morreram", disse o executivo. "Não há mais polícia nas ruas em várias cidades, e a situação está mudando rápido. Há cada vez mais pessoas indo às ruas para protestar."

O fluxo de líbios, porém, não é apenas de dissidentes do regime, e é possível encontrar também partidários de Kadafi.

"A polícia controla tudo e está tudo tranquilo. Não houve aviões bombardeando nem nada. Tudo isso é coisa de alguns bêbados que querem fazer tumulto e de americanos e britânicos, que são contra Kadafi", garantiu Bashir Lilioush, de 78 anos, aposentado que deixava o país em busca de tratamento médico para a perna quebrada.

"Kadafi é bom para o povo. Eu, por exemplo, recebo 700 dinares (cerca de ? 350) por mês do governo."

Saída. Além de tunisianos - os mais numerosos - e libaneses, sírios e egípcios também fogem do país. "Do lado contrário do país (o leste), eu não conseguiria sair. Foi a primeira vez que pusemos os pés fora de casa em 48 horas. E foi para sairmos", disse um refugiado sírio que preferiu não ser identificado.

Em Ras Jdir, os refugiados são recebidos com atendimento médio e psicológico, além de alimentação.

Ontem, um princípio de tumulto teve início quando os suprimentos chegaram para ser distribuídos. Uma unidade de emergência foi erguida na fronteira e um hospital de campanha foi montado pelo Crescente Vermelho 5 quilômetros para dentro da Tunísia para socorrer os feridos ou traumatizados pela violência.

"Só ontem foram 8,7 mil refugiados", disse Mouldi Hajji, coordenador do Crescente na região. "Nós esperamos o dia D, no qual certamente receberemos muitos feridos. Nossa estrutura é a mesma que montamos para situações de catástrofe."

ONDA DE VIOLÊNCIA

16/02: Protestos em Benghazi em apoio a Fathia Terbil e contra Kadafi

17/02: "Dia de Fúria" lembra repressão que deixou vários mortos

18/02; Protestos em Trípoli; manifestantes em Benghazi são atacados

20/02: Manifestantes assumem Benghazi - mortos chegam a 230; filho de Kadafi alerta para guerra civil

21/02; Pilotos desertam e diplomatas renunciam; protestos em Trípoli são bombardeados. ONGs estimam que entre 300 e 400 morreram

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