Repressão mata 9 e fere 300 no Egito

Forças de segurança espancam manifestantes caídos no chão e atacam a imprensa no 2º dia de nova onda de protestos na Praça Tahrir

CAIRO, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h04

Os comandantes militares do Egito intensificaram ontem a violenta repressão contra manifestantes que tomavam a Praça Tahrir, no Cairo, desde sexta-feira, espancando-os com golpes de cassetete e incendiando suas barracas. O número de mortos, a maioria a tiros, elevou-se a 9 e o de feridos aproximou-se de 300, segundo o Ministério da Saúde.

As forças de segurança egípcias atacaram também a imprensa, arremessando câmeras de cinegrafistas das sacadas de onde eles registravam o conflito. Apesar disso, as imagens de soldados espancando homens e mulheres caídos no chão ou os arrastando pelas roupas e pelos cabelos rodaram o mundo. A agência de notícias Reuters também registrou um dos agentes sacando uma pistola e disparando contra manifestantes que recuavam.

Testemunhas contaram que os membros das forças oficiais também davam choques elétricos nas pessoas que levaram presas, muitas delas mantidas num local próximo ao prédio do Parlamento.

Detida na noite da sexta-feira, a ativista Mona Seif contou à TV privada Al-Tahrir que viu uma mulher levando tapas no rosto de um agente que exigia desculpas por ela ter se juntado aos protestos. "Foi uma cena humilhante. Nunca havia visto isso em minha vida", contou. Durante o dia, por mais de 12 horas, homens com roupas civis, acompanhados de poucos agentes uniformizados, arremessaram blocos de concreto e pedras, do alto do prédio do Parlamento, contra os manifestantes.

Na manhã de ontem, um edifício público próximo à praça que concentra as manifestações foi incendiado. Arquivos oficiais, entre eles documentos históricos com mais de 200 anos, foram destruídos pelas chamas. Não ficou claro quem iniciou o fogo. Segundo a agência Mena, um funcionário do governo atribuiu o incêndio a coquetéis molotov arremessados por manifestantes. Na noite anterior, essas bombas foram intensamente usadas durante o protestos e incendiaram o Ministério dos Transportes do Egito.

As cenas de caos e violência sugerem que os militares - após uma primeira rodada de votação que, segundo eles, reforçou seu status de governantes - estão agora determinados a varrer os protestos que exigem uma transferência de poder aos civis.

Enquanto a repressão tomava conta da Praça Tahrir há mais de 24 horas, o premiê do governo interino, Kamal Ganzouri, nomeado pelos militares, negou que o Exército egípcio estivesse reprimindo qualquer protesto à força. Um oficial da corporação, entretanto, admitiu a violência em um comunicado, mas afirmou que as tropas do país atacavam "criminosos", não manifestantes, após eles terem disparado contra soldados e arremessado as bombas que teriam incendiado o edifício ontem.

Na semana anterior ao 28 de novembro, quando começaram as primeira eleições parlamentares após a queda do autocrata Hosni Mubarak, em fevereiro, 42 manifestantes foram mortos. Os militares prometem que em julho, após a conclusão da segunda fase da votação, transmitirão o poder aos civis. / NYT, AP e REUTERS

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