Vadim Ghirda/AP
Vadim Ghirda/AP

Repressão síria matou mais de mil, diz ONU

Nações Unidas denunciam regime de Assad por execuções e prisões em massa

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2011 | 00h00

A ONU denunciou ontem a "repressão brutal" que está ocorrendo na Síria, com mais de 10 mil pessoas presas e mais de 1,1 mil mortos nos protestos contra o governo. Apesar da constatação, os governos mostram-se divididos sobre qual caminho tomar em relação ao regime do líder sírio, Bashar Assad.

Ontem, na ONU, o Brasil condenou a violência, mas mostrou que não apoiará nenhuma ação contra o país. O Itamaraty chegou a elogiar as reformas políticas feitas pelo governo de Assad e alertou que a Síria é central na estabilidade do Oriente Médio, em um recado velado de que uma guerra em Damasco poderia significar um conflito regional. EUA e Europa pedem ações duras contra Damasco.

A ONU abriu investigações e ontem pediu que os responsáveis pela violência sejam levados à Justiça. No entanto, a organização foi impedida por Assad de entrar na Síria. O organismo coletou informações de dissidentes e dos mais de 8 mil sírios que já deixaram o país e fugiram para a Turquia. Segundo a comissária da ONU para Direitos Humanos, Navi Pillay, o governo sírio teria sido responsável por "execuções sumárias, prisões em massa e tortura".

Segundo ela, cidades inteiras foram sitiadas, impedindo civis de sair e deixando muitos sem alimentos ou assistência médica. O dado considerado mais preocupante é a prisão de mais de 10 mil pessoas, muitas das quais teriam sofrido tortura.

Navi também acusou o governo sírio de mentir sobre a morte de policiais. Num dos casos, Damasco alegou que 120 agentes de segurança teriam sido assassinados por "gangues". A ONU afirma que obteve informações de que a matança foi organizada pelo próprio governo. "O material obtido pela ONU é de grande preocupação e mostra uma situação crítica", afirmou o relatório.

O documento foi considerado por EUA e Europa como uma peça importante na pressão para conseguir apoio por uma resolução no Conselho de Segurança da ONU condenando o regime sírio. "Essas informações mostram o tamanho da crise", alertou a embaixadora dos EUA na ONU, Eileen Donahoe.

O Brasil, além de China e Rússia, considera que uma ação mais dura contra Damasco pode desestabilizar todo o Oriente Médio. "A Síria é central para a estabilidade no Oriente Médio", disse a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo. "Devemos evitar toda ação que possa contribuir para exacerbar tensões existentes naquela parte do mundo, que pode levar a resultados opostos ao que desejamos."

O recado do Brasil foi claro: a pressão internacional não poderá seguir os mesmos modelos do que ocorreu na Líbia e a solução precisa ocorrer por meio de um processo político. "O Brasil condena o uso de força letal contra manifestantes desarmados. Esperamos que a situação seja resolvida com base no diálogo, reforma e processo político inclusivo."

A posição do Brasil é a de mostrar também que não aprova a repressão, mas não está disposto a apenas criticar o governo sírio. "Reconhecemos os esforços feitos por Damasco para obter reformas políticas", disse a diplomata.

"O Brasil está seriamente preocupado com a intensificação da violência na Síria. Pedimos a todas as partes que parem com a violência imediatamente. É urgente permitir acesso humanitário a áreas afetadas pela violência", disse. A diplomata ainda fez uma crítica aos EUA, apontando que o Brasil não entende por que alguns casos são levados à ONU, enquanto violações em outras partes do mundo são esquecidas, numa insinuação de que o ataque verbal de Washington sobre a Síria seria político.

Aumento da repressão. O anúncio da ONU foi feito no mesmo dia em que unidades de elite do Exército sírio iniciaram uma operação no norte do país para reprimir todos os indícios de oposição ao presidente Assad. Uma fonte militar também afirmou que unidades do Exército estavam cercando a cidade de Al-Boukamal, no leste, perto do Iraque, para "proteger as fronteiras" sírias.

Enquanto isso, em Hama, no centro do país, dezenas de milhares de manifestantes foram às ruas em solidariedade às vítimas da onda de repressão.

 

 

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