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Reprodução assistida

É preciso ter a tomada de consciência de que a família de 2017 não tem nenhuma relação com a família do século 19 e é necessário acompanhar as mudanças de percepção do mundo

Gilles Lapouge, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2017 | 05h00

O trajeto mágico, quase irreal, iniciado pelo novo presidente da França, Emmanuel Macron, há seis meses, o conduz no momento a instâncias mais abruptas. Até agora, quando um obstáculo, uma contradição, um imbróglio surgia, Macron descia de seu cavalo, dizia com um sorriso alguma frase de uma banalidade insuperável e o obstáculo desaparecia. Agora, a situação ficou mais difícil. 

Entre os problemas que terá de resolver, ou evitar, está um que não é diretamente político e tem a ver com o casamento, a filiação, o casal. É a reprodução assistida, que existe há anos, mas não se aplica às mulheres solteiras ou casais de lésbicas. Ora, na terça-feira, o poderoso Comitê Consultivo de Ética, que sempre se opôs a se estender o direito de reprodução assistida, emitiu novo parecer, favorável a solteiras e casais de lésbicas.

Imediatamente surgiram violentas críticas de uma parte da opinião pública francesa. Há alguns anos a França já se dividiu em dois campos ferozes sobre o casamento de homossexuais que o ex-presidente François Hollande pretendia autorizar. Durante semanas os dois campos ocuparam as ruas das grandes cidades: a burguesia conservadora, idosos, católicos integristas e tradicionais. O jornal Le Figaro, caixa de ressonância desse tumulto, aderiu violentamente aos velhos costumes.

O fraco governo de Hollande, que defendia essa evolução, viveu um verdadeiro pesadelo. E se o casamento homossexual acabou sendo legalizado, Hollande saiu mortalmente ferido do embate. E agora, após o parecer favorável do Comitê de Ética?

Os partidários da família tradicional se resignarão à “detestável, mas fatal” evolução dos costumes? De nenhum modo, ao que parece. Já ontem, o Figaro elevou o tom. Como o apoio de filósofos, estudiosos, o jornal iniciou uma guerra contra as “famílias sem pai” e esse “salto antropológico mortal”. “As crianças um dia exigirão explicações”, afirmam as associações. 

Do outro lado a artilharia também retumba: “SOS Homofobia” e a Liga dos Direitos Humanos aplaudem e denunciam a hipocrisia da situação vigente, pois as lésbicas ou as mulheres solteira que desejam fazer uma inseminação vão para a Bélgica ou para a Espanha onde a reprodução assistida é autorizada. Mas apenas as mulheres ricas se beneficiam dessa solução. 

E é preciso acrescentar a ideologia da “modernidade”, a tomada de consciência de que a família de 2017 não tem nenhuma relação com a família do século 19 e é necessário acompanhar as mudanças de percepção do mundo, as revoluções da ciência etc.

Portanto, dois campos irreconciliáveis, e tanto um quanto o outro ladrando como um bando cães raivosos.

E Emmanuel Macron? Durante a campanha eleitoral ele afirmou que, pessoalmente, era a favor de uma extensão dos direitos para mulheres solteiras e lésbicas. Agora que o comitê de ética deu seu veredicto, o que ele fará? Proporá, de fato, essa extensão? Ou vai negar as afirmações que fez durante a campanha?

Ele tem a opção de “lavar as mãos” e enviar essa terrível questão para a Assembleia Nacional. Mas lá, se há uma grande maioria do partido República em Marcha de Macron, está claro que nessas fileiras há partidários ferozes da família tradicional como defensores ferrenhos da extensão da reprodução assistida para mulheres solteiras e lésbicas.

 

O enorme partido de Macron, um partido sem passado, sem memória e sem história, corre o risco de ser dividido em dois, o que significará a fraqueza e a vulnerabilidade perpétua de um instrumento político tão repentino quanto incerto como é essa República em Marcha, uma aglomeração de boa vontade, intenções e ambições entre pessoas unidas com base em apenas uma coisa: a admiração ou a gratidão por Macron, aquele que as inventou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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