A J Mast/ The New York Times
A J Mast/ The New York Times

Republicanos apostam no tema da educação para unir partido

'Direitos parentais' se tornam centro de debate sobre escolas públicas americanas

Por Lisa Lerer e Jeremy W. Peters, The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2021 | 15h00

WASHINGTON - Após uma inesperada demonstração de força na terça-feira, os republicanos caminham para as eleições de meio de mandato de 2022 com algo que, acreditam, será uma estratégia política altamente efetiva, capitalizando sobre as frustrações de pais de famílias suburbanas ainda abalados pela devastadora defasagem em educação na era pandêmica.  

Apoderando-se da educação como um potente tema agregador, os republicanos se movimentaram para reunir grupos cruciais de eleitores em torno do que o partido chama de “direitos parentais” nas escolas públicas, uma miscelânea de causas conservadoras que vão desde erradicar a obrigatoriedade do uso de máscaras até exigir mudanças em relação à maneira que os professores lecionam sobre racismo.     

O livre fluxo dessa sensação de ódio entre os pais, muitos deles sentindo-se abandonados pelo governo durante os piores meses da pandemia, emergiu nas eleições de fora de época deste ano como um dos principais impulsionadores dos candidatos republicanos. 

Por todo o país, os democratas perderam terreno significativamente nos subúrbios e regiões mais distantes de centros urbanos — os tipos de comunidades que atraem moradores em razão de suas bem financiadas escolas públicas — que ajudaram a dar ao seu partido controle do Congresso e da Casa Branca. Na Virgínia, onde os republicanos levaram as escolas para o centro de sua campanha, a educação foi para o topo da lista de preocupações dos eleitores nas semanas finais da corrida eleitoral, superando por pouco a economia. 

A mensagem funcionou em duas frequências. Repetindo o mantra de maior controle parental, Glenn Youngkin, o candidato republicano para governador da Virgínia, atiçou o ressentimento e o medo da parte do eleitorado branco alarmada com os esforços pelo ensino da história do racismo de maneira mais crítica nos Estados Unidos. Youngkin atacou a teoria crítica da raça, um campo de estudo que catalisa debates contenciosos a respeito de como abordar a questão racial. E lançou uma propaganda de campanha que remetia à época em que livros eram banidos, ressaltando insatisfações de uma mãe branca e seu filho em idade escolar em relação ao romance Amada, obra canônica a respeito da escravidão de Toni Morrison, escritora negra laureada com o Prêmio Nobel.

Ao mesmo tempo, porém, Youngkin e outros republicanos exploraram insatisfações que abrangem também eleitores moderados, a respeito de sindicatos de professores, diretorias de ensino indiferentes, políticas de quarentena e educação à distância, que os pais experimentaram em primeira mão durante meses. Em seus discursos de campanha, Youngkin prometeu que as escolas da Virgínia jamais serão fechadas novamente. 

Ainda que Terry McAuliffe, o candidato democrata, e seus aliados de partido condenem veementemente os ataques mais nefastos de seus oponentes, eles pareceram despreparados para responder à onda mais ampla de descontentamento em relação às escolas. 

Nas semanas que antecederam a eleição na Virgínia, os republicanos salientaram a estratégia do debate sobre as escolas como um possível modelo para todo seu partido. A vitória apertada, mas decisiva, de Youngkin na terça-feira confirmou para os republicanos que eles se apropriaram de um tema capaz de unir diversos grupos de eleitores. A tendência ficou mais evidente em razão do desempenho melhor de Youngkin em relação ao do ex-presidente Donald Trump nos subúrbios de Washington, que abrigam misturas de comunidades, com grande presença de populações asiáticas, hispânicas e negras. 

O deputado federal Kevin McCarthy, líder da maioria na Câmara, elencou a educação como a principal plataforma para o plano de seu partido de retomar poder, prometendo introduzir uma "Declaração de Direitos dos Pais”. 

“Na Virgínia, se os resultados nos mostraram algo, foi que os pais estão exigindo maior controle e responsabilidade nas salas de aula”, escreveu ele na noite da eleição, em uma carta à sua bancada. 

Steven Law, presidente da American Crossroads, uma das entidades independentes mais atuantes pela eleição de republicanos na Câmara dos Deputados e no Senado, afirmou que a estratégia está amadurecida e pode ser replicada em disputas eleitorais por todo o país. 

“Sempre é possível exagerar em algum ponto”, acrescentou ele, alertando os republicanos que seria muito insensato promover ataques que pareçam hostis aos professores. “Mas muito claramente há um elevado nível de preocupação entre os pais sobre experimentações políticas e sociais nas escolas, que transcende ideologias.” 

Enquanto a imprensa conservadora e os candidatos republicanos atiçaram ansiedades e ressentimentos raciais que animam a base de seu partido — vociferando sobre iniciativas de equidade, livros com conteúdo sexual e a participação de estudantes transgênero em competições esportivas — eles evitaram em grande parte apresentar planos específicos para enfrentar temas mais espinhosos, como cortes de orçamento e as crescentes desigualdades educacionais. 

Mas o resultado da eleição sugeriu que os republicanos trataram o tema da educação de maneiras que ressoaram entre uma faixa mais ampla e transversal do eleitorado. 

Na Virgínia, a campanha de Youngkin teve apelo entre pais de ascendência asiática preocupados a respeito de esforços progressistas de tornar processos de admissão em programas de educação para habilidades especiais menos restritivos; entre pais negros insatisfeitos com a oposição de sindicatos de professores a escolas autônomas; e entre mães suburbanas, de todas as raças, em geral irritadas por ter tido de fazer tanto malabarismo em casa durante o último ano e meio.     

“Não é uma questão partidária”, afirmou Jeff Roe, estrategista-chefe da campanha de  Youngkin. “É de toda gente.” 

Os democratas em sua maioria rejeitaram se envolver profundamente em discussões tão carregadas, mantendo o foco, em vez disso, em planos de injetar bilhões de dólares em financiamentos educacionais, expandir programas de creche e aumentar salários dos professores. 

Na Virgínia e em Nova Jersey, os candidatos democratas ao governo adotaram a abordagem do governador da Califórnia, Gavin Newsom, que enfrentou um referendo revogatório e enfrentou linhas similares de ataques, mas revidou apoiando-se na vacinação e na obrigatoriedade do uso de máscaras nas escolas. Anteriormente às eleições de meio de mandato, muitos temas relativos a educação certamente perdurarão. 

Os efeitos do ensino à distância já se mostraram severos sobre os pais: fechamentos de escolas retiraram milhões deles do mercado de trabalho, levaram a um aumento em problemas de saúde mental entre as crianças e pioraram desigualdades educacionais já existentes. Muitos desses efeitos foram mais pesados sobre partes cruciais da base eleitoral democrata, incluindo mulheres, negros e latinos. 

Estrategistas, ativistas e autoridades instaram os democratas a se preparar para os ataques que seriam ecoados por candidatos do Partido Republicano de todo lado. 

Geoff Garin, um graduado especialista em pesquisas do Partido Democrata, afirmou que os candidatos democratas precisam expandir sua mensagem para além de seus tradicionais objetivos políticos, como reduzir o número de alunos por sala de aula e expandir as creches.

“Será dever dos democratas dar uma resposta convincente”, afirmou Garin, que trabalhou como especialista em pesquisas de McAuliffe durante sua campanha ao governo de 2013. “Eles também precisam estar preparados para afirmar o valor da educação pública enquanto um ambiente com um currículo comum e valores compartilhados, que a maioria dos eleitores acreditem ser os corretos para as escolas públicas."   

Katie Paris, ativista do partido que dirige a Red, Wine and Blue, entidade que trabalha na mobilização de mulheres que habitam subúrbios, afirmou que, mesmo enquanto alertava que os ataques sobre a teoria crítica da raça estavam “espalhando-se como um incêndio florestal”, os pedidos dela por recursos foram amplamente ignorados por doadores e dirigentes democratas.  

“Essas forças externas vieram atrás de nossas escolas e comunidades, e nos níveis mais altos do Partido Democrata, as pessoas simplesmente disseram, ‘Bem, é melhor não falarmos sobre isso’”, afirmou ela. “A relutância em se envolver nessa discussão foi um grande erro agora e também será um grande erro em 2022.” 

Rashad Robinson, presidente da organização por justiça racial Color of Change, expressou uma preocupação similar, afirmando que a falta de disposição dos democratas em defender a necessidade das escolas públicas ensinarem e discutirem honestamente questões de raça deixou o partido em desvantagem. Os democratas, afirmou ele, “não se apresentam quando a conversa engrossa.” 

“A teoria crítica da raça não está sendo ensinada, mas precisamos dizer o que realmente está sendo ensinado e por que isso é uma estratégia para evitar que nossos filhos aprendam a nossa história em sua totalidade”, afirmou Robinson, que aconselhou estrategistas e candidatos democratas a respeito de suas mensagens sobre o tema. “Trata-se de banir a história dos negros, mas também se trata de banir a história americana.”

O tema, admitiram alguns estrategistas do partido, é particularmente complicado para democratas que dependem de sindicatos de professores para financiamento e apoio voluntário. Líderes de sindicatos estaduais e nacionais expressaram ira publicamente em razão de demoras na reabertura das escolas mesmo após os professores terem tido acesso prévio às vacinas. Nos dias finais da campanha na Virgínia, McAuliffe apareceu com Randi Weingarten, a influente presidente da Federação Americana de Professores, o que gerou críticas dos republicanos. 

Após a eleição, Weingarten colocou a culpa da derrota de McAuliffe na afirmação dele a respeito de não acreditar que “pais deveriam dizer às escolas o que ensinar”. Mas ela também repreendeu os democratas por sua timidez, alertando que discussões duras são necessárias para reconstruir a confiança dos pais nas escolas. 

Há sinais de limitações para a abordagem dos republicanos. Apesar de o partido ter investido dinheiro e ajudado campanhas eleitorais para postos em diretorias de ensino — assuntos locais que normalmente dão sono — os resultados preliminares foram ambíguos, com candidatos conservadores perdendo em Wisconsin, Connecticut e Minnesota.

Em nível nacional, porém, o tema parece ressoar particularmente nas afluentes comunidades suburbanas que enfrentaram os períodos mais longos de ensino remoto. Ainda que as escolas estejam abertas universalmente este ano, a educação tanto na Virgínia quanto no restante do país continuou prejudicada por quarentenas ocasionais e fechamentos de salas de aula para conter o coronavírus. 

No ano passado, a Virgínia esteve entre os Estados da Costa Leste mais lentos em reabrir as escolas para o ensino presencial em tempo integral. Ainda que alguns pais tenham apoiado a abordagem cautelosa — estimulada por sindicatos de professores, diretorias de ensino e alguns gestores — outros ficaram frustrados e enfurecidos, especialmente em condados suburbanos como Fairfax e Arlington.

“Havia um nível de ansiedade e raiva, e as pessoas queriam suas vidas de volta”, afirmou  Weingarten, que foi criticada por organizar um evento público em setembro com o Open Schools USA, grupo que se opõe à obrigatoriedade de vacinação e uso de máscara nas escolas. “Mas temos que nos envolver. Essa, acho, é a grande lição.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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