Republicanos brincam com fogo

Falta de propostas por parte dos radicais pode levar partido a reeditar era Goldwater

Geoffrey Kabaservice*, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2015 | 02h03

Os republicanos americanos não são grandes fãs de Karl Marx, mas talvez devessem refletir sobre sua famosa afirmação de que a História se repete, a primeira vez como tragédia, depois, como farsa. Enquanto pré-candidatos presidenciais grotescos dominam as pesquisas de opinião e os radicais derrubam líderes do Congresso, o Partido Republicano caminha para uma reedição da catastrófica revolta de Goldwater, no início dos anos 60. Pode ser até um espetáculo engraçado, mas é perigoso.

O Partido Republicano há muito está dividido entre as facções comparativamente moderada e conservadora, mas historicamente os conservadores eram também realistas.

O senador Robert Taft, de Ohio, grande líder conservador de meados do século 20, compreendia que seu lado deveria dar passos gradativos na realização dos seus objetivos. Teria de formular alternativas políticas detalhadas às propostas dos democratas, trabalhar com a liderança do partido e montar coalizões tanto no interior do partido quanto entre todos os partidos.

Extremismo. O início dos anos 60, no entanto, testemunhou a derrubada do realismo taftiano. Os radicais que aderiram à campanha rebelde do senador Barry Goldwater à presidência eram fanáticos. Não estavam interessados em aprontar uma agenda de governo.

Seu programa consistia principalmente em acabar com o New Deal implantado por Roosevelt e com todas as iniciativas oficiais destinadas a promover o bem-estar geral da população. Segundo sua famosa frase: "Meu objetivo não é aprovar leis, mas revogá-las. Não é inaugurar novos programas, mas cancelá-los".

Os seguidores de Goldwater consideravam todo republicano que pretendesse governar um traidor a ser eliminado. Acusaram a própria liderança de conspirar com os democratas com a finalidade de frustrar os conservadores, enquanto o tema da traição interna constituía a essência do apelo populista do senador Joseph McCarthy.

Eles não tinham outra estratégia exceto tomar o controle do partido e indicar Goldwater. Estavam convencidos de que seu candidato ganharia as eleições de 1964, pois uma maioria oculta acorreria às urnas quando lhe fosse apresentado um candidato que não fosse o que hoje chamariam de "politicamente correto".

Anos atrás, escrevi um artigo sobre a guerra civil republicana entre os moderados e os radicais da era Goldwater. Hoje, fico bastante alarmado ao ver a história se repetir, na minha função de consultor de pesquisa para a Main Street Partnership, uma organização de mais de 70 membros do Congresso que representa a ala conservadora moderada do Partido Republicano. Seus rivais são membros do Freedom Caucus, que preferiria fechar o governo a aceitar um compromisso.

Objetivos. Mais uma vez, a batalha se trava entre os republicanos que querem governar e os que não querem. Os radicais não têm qualquer solução alternativa realista própria. A simples apreciação das negociações e dos compromissos que essas políticas acarretam arruinaria sua reputação de pureza ideológica.

O senador Goldwater, apesar do seu corajoso discurso de repúdio, era um legislador isolado, sem qualquer poder. Os radicais que se opunham a John Boehner como presidente da Câmara são uma facção igualmente reduzida, incapaz de criar um programa positivo. O site InsideGov, um guardião do governo, recentemente apresentou uma lista dos membros menos eficientes do Congresso, redigida de acordo com a porcentagem de projetos de lei por eles patrocinados que tenham passado da etapa do comitê. O extremismo ideológico se correlaciona à impotência legislativa.

O que não surpreende, pois muitos membros do Freedom Caucus consideram sua maior prioridade marcar pontos de pureza do que cuidar dos negócios do país.

Segundo essa avaliação, seu presidente, o deputado Jim Jordan, de Ohio, é o segundo membro menos eficiente do Congresso. O único até mesmo menos eficiente é outro antigo crítico de Boehner, o deputado Steve King, de Iowa, que patrocinou 94 projetos de lei nenhum dos quais passou da etapa do comitê.

A maioria dos críticos mais enérgicos de Boehner está nos últimos lugares do Índice de Bipartidarismo do Lugar Center. O deputado Tim Huelskamp, de Kansas, que tuitou triunfante "hoje o establishment perdeu" depois da renúncia de Boehner, é o último da classificação.

Destinos. A infeliz aventura ideológica do Partido Republicano no início dos anos 60 acabou em desastre. Goldwater não só perdeu a eleição de maneira humilhante, como arrastou toda a lista republicana. O principal resultado da derrota conservadora foi entregar ao presidente Lyndon B. Johnson a supermaioria liberal de que precisava para a aprovação do Medicare e do Medicaid.

O atual ressurgimento do conservadorismo contra o governo provavelmente deverá também acabar mal para os republicanos. Os radicais têm a capacidade de provocar a interrupção do Congresso, mas não de liderá-lo.

Sua convicção de que o fechamento das repartições da administração pública assegurará concessões concretas é pensamento mágico, e não realismo legislativo. E quanto mais poder eles obtiverem, menor é a probabilidade de que um Congresso controlado pelos republicanos aprove leis conservadoras, ou mesmo qualquer lei.

É verdade que, às vezes, nenhuma lei é melhor do que uma lei ruim. Mas os Estados Unidos enfrentam problemas reais, até mesmo a estagnação dos salários, a instabilidade das famílias, o colapso da infraestrutura e o endividamento de longo prazo. Se os legisladores e pré-candidatos republicanos não puderem apresentar as próprias soluções para os problemas do país, terão de lidar com o que os democratas - ou a dura realidade - lhes impuserem. A paralisia não é um projeto.

A nova definição do republicanismo como força da anarquia respingou na disputa presidencial e ameaça as chances do eventual indicado do partido para concorrer nas eleições gerais do próximo ano.

O establishment do Partido Republicano, e a maioria "governista" do partido, têm o poder de domar essa rebeldia, seja abandonando a chamada norma Hastert, que exige uma maioria da maioria para a aprovação de uma lei antes que ela possa chegar a ser apresentada para a votação no Congresso, seja lançando seus próprios desafios.

É tarde demais para John Boehner desafiar os radicais, mas seu sucessor terá de fazê-lo se o Partido Republicano quiser contar com um futuro expressivo. / Tradução de Anna Capovilla

*Geoffrey Kabaservice é autor do livro 'Rule and Ruin: The Downfall of Moderation and the Destruction od the Republican Party, from Eisenhower to the Tea Party

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