Brittany Greeson / The New York Times
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Republicanos de Michigan recuam após se recusarem a certificar os resultados eleitorais

A jogada republicana em Detroit foi um dos exemplos mais nítidos de como aspectos anteriormente rotineiros do sistema de votação do país foram contaminados pelo esforço de Trump para desafiar sua derrota

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 07h56
Atualizado 18 de novembro de 2020 | 08h01

DETROIT -Os representantes republicanos de um conselho eleitoral no condado de Wayne, no Michigan, recusaram-se, na terça-feira, 17, a certificar os resultados da eleição, mas mudaram de ideia horas depois após protestos de funcionários estaduais e eleitores de Detroit.

Dois republicanos do conselho, composto por quatro integrantes, aderiram ao esforço abertamente partidário para atrasar a certificação da vitória de Joe Biden no Estado sobre o presidente Donald Trump.

O impasse inicial e a reviravolta culminaram em um dia caótico de repetidos fracassos republicanos na tentativa do partido de minar os resultados eleitorais. 

Os republicanos perderam um caso perante a Suprema Corte da Pensilvânia e enfrentaram uma recepção cética em uma audiência no tribunal federal do Estado, e uma auditoria na Geórgia confirmou que não houve fraude eleitoral.

A jogada republicana em Detroit foi um dos exemplos mais nítidos de como aspectos anteriormente rotineiros do sistema de votação americano foram contaminados pelo esforço de Trump para desafiar sua derrota. Mas sua reversão mostrou os limites do que foi, em essência, um esforço para privar de direitos um grande número de americanos. 

Nos EUA, após a contagem dos votos, cada Estado tem um prazo para certificar os resultados dos condados. Cada condado tem o seu conselho, composto por um número igual de conselheiros republicanos e democratas. A certificação ocorre, em geral, até duas semanas após o resultado da eleição, para permitir questionamentos jurídicos ou recontagem de votos.

No caso da certificação no condado de Wayne, os membros do conselho do Partido Republicano só certificaram os resultados depois de horas de comentários furiosos de cidadãos, muitos de Detroit, que acusaram os republicanos de tentar roubar seus votos.

A princípio, os dois republicanos do conselho disseram que votariam contra a certificação dos resultados porque muitos distritos no condado estavam desequilibrados, embora as disparidades envolvessem principalmente um pequeno número de votos. 

O conselho chegou a um impasse, com os democratas de Michigan denunciando a oposição como uma intromissão política descarada no processo e criticando o movimento republicano.

Em um ponto, um membro do conselho republicano, Monica Palmer, fez uma moção para "certificar os resultados nas comunidades, menos a cidade de Detroit" — uma ação que efetivamente privaria de direitos uma das cidades predominantemente negras do país - e que deu quase 70% dos votos a Biden.

Mark Brewer, um especialista em lei eleitoral e ex-presidente do Partido Democrático de Michigan, observou que a moção de Palmer teria bloqueado a certificação para Detroit, onde os residentes negros constituem 78% da população, e certificou os resultados para comunidades como Livonia, onde o população negra é de 4,4%.

“Monica Palmer sentou-se lá e disse que está disposta a aprovar os resultados da cidade branca de Livonia, que tinha o segundo maior número de distritos desequilibrados, mas ela não certificou a cidade de Detroit”, Brewer disse. “Não há razão para destacar a cidade de Detroit por esse tratamento racista.”

O impasse pareceu à primeira vista como uma rara vitória para Trump, que, apesar das repetidas derrotas nos tribunais e uma série de reivindicações infundadas, continuou a atacar de modo implacável o sistema eleitoral do país.

Mesmo depois de o conselho ter resolvido seu impasse inicial, a noite forneceu novas evidências de que, no mínimo, a campanha de Trump está conseguindo interromper o que há muito tem sido um processo ordeiro de certificar o claro vencedor dos votos populares e do Colégio Eleitoral e garantir uma pacífica transferência de poder. 

Embora os partidários de Trump pareçam se divertir com seus ataques, a confusão de Michigan apresentou um fator novo: eleitores furiosos que não aceitariam qualquer possibilidade de que seus votos fossem anulados na disputa partidária.

Embora o presidente enfrente obstáculos impossíveis em sua tentativa de forçar um resultado diferente daquele que saiu das urnas, ele e os principais aliados republicanos mostraram que não têm intenção de cessar seus ataques ao sistema de votação.

Michigan tem 83 conselhos de condados (County Canvassing Boards), cada um dos quais deve certificar os resultados eleitorais até terça-feira. Em seguida, o processo segue para o Conselho de de Campanha do Estado de Michigan, onde os resultados finais devem ser finalizados no prazo de 23 de novembro.

No Condado de Wayne, havia pequenas discrepâncias nas quais o número de votos expressos não correspondia ao número de eleitores listados como tendo comparecido para votar em vários distritos eleitorais. Isso pode ser resultado de cenários como um eleitor desistindo de votar ao se deparar com uma longa fila ou uma cédula de votação de ausente que não foi tabulada, entre outras possibilidades. A maioria envolveu uma centena de votos e foram os tipos de inconsistências frequentemente encontrados durante os processos de apuração, sem levar a impasses como o que aconteceu na terça-feira.

A secretária de Estado, Jocelyn Benson, uma democrata, disse em um comunicado na terça-feira que o Conselho Eleitoral estaria pronto para apurar e resolver as discrepâncias nos resultados do condado de Wayne se o conselho estadual de apuração o solicitar. Esse conselho está programado para se reunir às 15h30 (horário de Brasília) de quarta-feira.

Um conselheiro sênior de Trump, Justin Clark, disse que a campanha não desempenhou nenhum papel no comitê de propaganda. “Não éramos nós”, disse ele.

À medida que a ansiedade se espalhava entre os democratas em todo o país, os funcionários de Detroit expressaram certeza de que a falha inicial do conselho em fazer a certificação não impediria o Estado de certificar totalmente todos os seus resultados antes que o colégio eleitoral conclua sua votação nacional em meados de dezembro. E, eles disseram, isso não levaria à privação de direitos dos eleitores de Detroit ou, ainda, a qualquer mudança significativa nos resultados das eleições presidenciais em Michigan.

Christopher Thomas, um conselheiro sênior da cidade de Detroit e um especialista de longa data em administração de eleições, chamou a falha do conselho em certificar os resultados de "um pontinho na estrada". “Isso não é algo que vai impedir o colégio eleitoral de se reunir”, disse ele.

Antes da reversão do conselho, o Partido Democrata do Estado emitiu uma declaração contundente acusando os dois republicanos de política partidária aberta, ações que "não apenas vergonhosas, mas um completo abandono de deveres".

“Esta ação acaba com uma longa e orgulhosa história do condado de Wayne agindo de uma forma verdadeiramente bipartidária, protegendo a santidade do voto e incutindo confiança nos residentes do condado de que seus votos foram realmente contados, e contados corretamente”, disse Lavora Barnes, presidente do Partido Democrata de Michigan, em um comunicado. “Que foi exatamente o que aconteceu este ano.”

O drama de terça-feira alimentou temores entre os democratas de que Trump estivesse trabalhando para forçar Michigan e outros Estados críticos a perder seus prazos de certificação para que as legislaturas controladas pelos republicanos pudessem nomear seus próprios quadros de delegados pró-Trump para o colégio eleitoral, independentemente das vitórias no voto popular para Biden - ações que os advogados de Biden rejeitaram como legalmente fúteis.

Mike Shirkey, o líder da maioria republicana no Senado estadual de Michigan, disse em uma entrevista na terça-feira ao Bridge Michigan, uma agência de notícias local, que o Legislativo não se moveria para nomear seus próprios eleitores. “Isso não vai acontecer”, disse Shirkey./ THE NEW YORK TIMES

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