Republicanos e os radicais do partido

Vitória de candidatos do ultraconservador Tea Party nas primárias é vista como levante que pode deixar o espectro político aberto aos democratas

, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

Chamem a isso guerra civil, insurreição ou meramente insurgência. Por todos os parâmetros, a liderança instituída do Partido Republicano perdeu o controle e está sendo arrastada para um futuro incerto.

O que ocorreu na terça-feira em Delaware, onde a conservadora Christine O"Donnell venceu o candidato moderado Michael Castle na primária para o Senado, pode ter sido o ponto de ruptura no partido, cujos líderes têm observado com nervosismo como ativistas do grupo ultraconservador Tea Party censuram candidatos apoiados pelo establishment em primárias por todo os EUA.

As reações no interior do Partido Republicano foram dramáticas, a julgar pelos e-mails que chegaram na madrugada, enquanto estrategistas do partido e outros tentavam digerir o que foi, sob todos os aspectos, a ocorrência mais chocante em um ano de surpresas.

Bom para os adeptos do Tea Party, disseram alguns estrategistas do partido. Eles são a vanguarda de um movimento anti-Washington que "varrerá os democratas em novembro" e colocará em risco a esperança de reeleição do presidente Barack Obama em 2012. A mensagem é mais forte do que o mensageiro, e a mensagem é "parem a loucura em Washington".

Entra o povo, fora Washington! Não é bem assim, argumentam outros. Política é saber somar, não subtrair. As forças Tea Party substituíram a pureza pelo senso comum e estão engajadas num expurgo do Partido Republicano, o que agora torna mais difícil que este consiga uma maioria no Senado em novembro. Seja qual for o desfecho, o conservadorismo do Tea Party pode deixar o centro do espectro político aberto para Obama e os democratas, se o presidente for esperto para pleiteá-lo.

Essas disputas continuarão acirradas entre agora e novembro e muito provavelmente após os resultados das eleições de meio de mandato serem conhecidos. Não haverá respostas garantidas sobre o futuro dos republicanos; não há um clima político que possa mudar tão drasticamente como mudou de 2004 a 2006 e 2008, e agora 2010. Nenhum resultado eleitoral pode antecipar a forma daqui a dois anos.

Não há dúvida de que os republicanos estão cavalgando um tigre no movimento Tea Party. Delaware não foi o único resultado chocante na terça-feira. Em Nova York, os republicanos voltaram-se contra o candidato a governador do establishment, o ex-deputado Rick Lazio, preferindo um bombástico empresário conservador, Carl Paladino.

Aconteça o que acontecer em novembro, a liderança do partido está consciente de que a base estará julgando severamente, e preparada para punir qualquer um que se desvie do que ela entende que seja a ortodoxia do partido.

"Os eleitores acabam de dar um soco na boca do establishment", disse Kevin Madden, um estrategista do Partido Republicano. "Os eleitores de Delaware estavam totalmente desinteressados em se alinhar com o status quo percebido, a ponto de estar dispostos ao risco de perder uma cadeira no Senado."

O republicano John Weaver disse que a sublevação é um resultado natural dos pecados dos republicanos quando eles ocuparam o poder da última vez e perderam a confiança de sua base conservadora com gastos, destinações de verbas e escândalos.

"Está claro que não tem ninguém no comando", disse Weaver. "Nenhuma pessoa. Nenhuma entidade. Não existe tampouco um tema unificador. É natural que nosso partido esteja no deserto, procurando o caminho certo. E é natural que haja o derramamento de sangue político no processo, entre conservadores e ultraconservadores." Mas acrescentou: "As vitórias que estamos prestes a conquistar em novembro não foram ganhas por nós, mas nos foram dadas por um presidente desligado e perdulário. É melhor aprendermos rapidamente nossas lições ou essa marcha no deserto vai durar muito mais."

Ed Rogers, um lobista em Washington e veterano estrategista do Partido Republicano, declarou-se preocupado com os custos que o movimento Tea Party terá para os republicanos em novembro. "A vigorosa ala minoritária dentro do Partido Republicano, que supostamente deveria ajudar o partido a ganhar cadeiras em novembro, está matando alguns de nossos melhores candidatos nas primárias", disse ele. "O "Partido do Não" está sendo conduzido por seu bloco sem liderança do "Não mesmo!" Temo que na noite da eleição, nós do partido estaremos celebrando nossa pureza enquanto (Nancy) Pelosi e (Harry) Reid comemoram sua reeleição."

Mas Alex Castellanos, outro estrategista republicano, disse que as únicas pessoas que deveriam se surpreender com o resultado de Delaware, após o que ocorreu em Kentucky, Nevada, Colorado, Alasca e outros Estados, eram as daquele "establishment real" olímpico que acham que o país precisa mais das coisas como estão em Washington. "Os americanos não querem que o governo trabalhe", disse ele. "Querem que ele pare de trabalhar porque suspeitam que toda vez que ele trabalha, eles pagam um preço."

Os democratas não consideraram o poder do expresso anti-Washington que está rolando rumo a novembro. "Acho otimismo em excesso pensar que qualquer candidato Tea Party em qualquer disputa perderá porque eles são conservadores demais", disse a especialista em pesquisas eleitorais democrata Anna Greenberg.

"Na política, como na guerra, a insurgência é muito difícil de controlar", disse o republicano Alex Vogel. "Assim como candidatos do establishment do Partido Republicano não imaginaram como lidar com isso, eu diria que os democratas não deveriam se comprazer com os resultados (de terça-feira)."

Os democratas veem oportunidades mais adiante. "Houve um golpe das bases contra o establishment republicano e, com isso, os republicanos tornaram-se, para todos os propósitos práticos, o partido de Sarah Palin e Jim DeMint", disse o especialista em pesquisas Geoff Garin. "O partido da grande tenda de Ronald Reagan não existe mais."

As paixões anti-Washington ainda apontam para uma grande eleição para os republicanos em novembro. Mas os líderes ficarão com o desafio de mapear o futuro do partido. Isso moldará a batalha pela nomeação republicana para 2012 e a construção da coalizão ampla de que todos precisam para prosperar. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É JORNALISTA E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

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