Brendan Smialowski/AFP
Brendan Smialowski/AFP

Republicanos mostram fissuras ao assumir o controle do Congresso

Com maioria nas duas Casas do Legislativo americano pela primeira vez no governo Obama, oposição tem o desafio de conter sua ala mais radical e buscar unidade

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2015 | 02h04

O Partido Republicano assumiu ontem o controle do Congresso dos EUA com o desafio de conter sua ala radical e buscar unidade para a eleição presidencial de 2016. Os líderes da legenda querem projetar uma imagem de moderação e responsabilidade. O grande teste será na metade do ano, quando eles votam o aumento do limite de endividamento do governo e terão de convencer os extremistas do Tea Party.

A dissidência entre os republicanos se manifestou logo no primeiro dia de funcionamento do novo Congresso, quando 25 parlamentares do partido votaram contra a reeleição de John Boehner para a presidência da Câmara dos Deputados - o mais numeroso "fogo amigo" destinado a um ocupante do cargo em 100 anos. No fim, ele venceu a disputa com 216 votos, 11 a mais que o necessário para evitar um segundo turno.

Os críticos de Boehner afirmam que ele não é conservador o bastante e atacam o acordo que ele fechou com os democratas, no mês passado, para aprovar o orçamento. Em 2013, os radicais conseguiram empurrar o partido para uma posição intransigente que levou ao fechamento do governo por 16 dias e colocou os EUA à beira da moratória.

"O grande desafio dos republicanos será o próprio partido", disse ao Estado David Karol, professor de Política Americana da Universidade de Maryland. Em sua opinião, a dissidência de 25 republicanos na recondução de Boehner é significativa. "Tradicionalmente, esse é um tipo de votação em que os deputados acompanham seus partidos. É uma indicação de que ele terá problemas."

O controle das duas Casas do Legislativo pelos republicanos apresenta um cenário difícil para os dois últimos anos de governo do presidente Barack Obama, que enfrentava oposição implacável do partido na Câmara dos Deputados.

Depois da derrota dos democratas nas eleições de meio de mandato, em novembro, Obama lançou mão de decretos para suspender a deportação de milhões de imigrantes sem documentos e iniciar o processo de restabelecimento de relações diplomáticas com Cuba, duas medidas de impacto que ajudarão a construir o legado de seu governo.

A tática de governar por decreto tem limites, porque é o Congresso que aprova verbas para os programas do governo. Os republicanos já anunciaram que pretendem retirar recursos de agências que cuidam de imigração e negar financiamento para a Embaixada dos EUA em Havana, na tentativa de esvaziar as medidas anunciadas por Obama.

Outro limite do ato executivo é o fato de que ele pode ser revertido a qualquer momento por outro presidente, ressalta Karol. "Se ele quer deixar um legado, isso é problemático", observou.

Com o controle das duas Casas, os republicanos devem aprovar mais projetos que na legislatura anterior, a menos produtiva da história do Congresso. Muitos deles, no entanto, devem enfrentar o veto de Obama, que dificilmente será derrubado pela oposição - os republicanos terão maioria, mas não os dois terços necessários para isso.

O primeiro enfrentamento entre a Casa Branca e o Congresso republicano deve envolver a proposta para construção do oleoduto Keystone, que ligaria o Canadá ao Texas. Boehner e o líder republicano no Senado, Mitch McConnell, anunciaram que o projeto será votado nos próximos dias e enviado ao presidente.

Ontem, o porta-voz de Obama, Josh Earnest, disse que Obama vetará o texto. Segundo ele, o governo continuará a estudar a construção do oleoduto, mas só tomará uma decisão depois de resolvida uma pendência judicial no Estado de Nebraska.

Enquanto administram sua maioria no Congresso, os republicanos terão de conter suas divisões internas para definir o nome do partido à sucessão de Obama. Pelo menos dez pré-candidatos manifestaram interesse em disputar a nomeação do partido - da estrela do Tea Party, Ted Cruz, ao preferido do establishment, Jeb Bush, filho e irmão de ex-presidentes.

Os doadores pressionam para que a legenda defina logo um nome, para reduzir o risco de suas apostas. No lado democrata, Hillary Clinton aparece como favorita à indicação para a eleição do próximo ano.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.