Fabrice Coffrini/AFP
Fabrice Coffrini/AFP

Republicanos não têm votos para barrar testemunhas em impeachment de Trump

Democratas buscam quatro parlamentares do partido oposto para prolongar julgamento do presidente dos EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 11h32

WASHINGTON — O líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, disse a senadores na noite de terça-feira, 28, que ainda não tem os votos suficientes para bloquear a convocação de novas testemunhas para o julgamento do  impeachment do presidente dos Estados UnidosDonald Tump, na Casa.

McConnell convocou uma reunião a portas fechadas com senadores do Partido Republicano logo depois que a defesa de Trump fez seus argumentos finais no julgamento.

McConnell tem tentado impedir um julgamento prolongado e avisou os republicanos que o depoimento de John Bolton, ex-consultor de Segurança Nacional dos EUA, ou de outras testemunhas poderia levar a disputas legais que se estenderiam por semanas.

A etapa seguinte será uma discussão, prevista para durar até quatro horas, sobre pedidos de documentos e convocações de testemunhas adicionais. Até domingo, a maioria republicana queria evitar novos depoimentos para "acelerar" o fim do julgamento e absolver Donald Trump — pelas regras do impeachment, são necessários 67 votos para que o presidente seja afastado do cargo, mas a oposição possui apenas 47.

Para Entender

Guia do impeachment: veja o passo-a-passo para depor o presidente dos EUA

Entenda todas as etapas necessárias para remover Donald Trump e saiba quais sãos as diferenças em relação ao processo no Brasil

Contudo, as revelações explosivas do livro de John Bolton podem mudar esse cálculo, e alguns republicanos já defendem que ele seja ouvido. Mitch McConnell convocou uma reunião nesta terça-feira para "colocar os senadores governistas na mesma página". Mitt Romney, antigo rival de Trump, diz que quatro republicanos devem votar a favor da convocação de Bolton, permitindo que ele compareça.

No começo da noite, McConnell reconheceu, de maneira privada a colegas de Casa, que não tem os votos necessários para barrar a convocação de Boltou ou outras testemunhas.

Diante deste cenário, segundo o The Hill, o senador Pat Toomey sugeriu uma "troca de depoimentos": se Bolton for chamado, os republicanos poderiam escolher um nome, e o preferido é o filho de Joe Biden, Hunter, personagem central da investigação. Depois do encontro, porém, os parlamentares disseram que nenhuma decisão foi tomada e que "esta é uma discussão em progresso", como afirmou o senador John Cornyn à CNN.

Defesa de Trump pede 'absolvição total'

No último dia das argumentações da defesa de Donald Trump no julgamento de impeachment no Senado, os advogados afirmaram que "já é hora" de o processo acabar. Citando um argumento usado pelo próprio Trump, os defensores sugeriram que as acusações têm fundo eleitoral.

“A eleição acontece daqui a alguns meses. O povo americano tem o direito de escolher seu presidente. Derrubar eleições passadas e interferir de maneira maciça na que vem por aí apenas vai causar sérios e duradouros estragos ao povo dos EUA e a nosso grande país. O Senado não pode permitir que isso aconteça”, afirmou Pat Cipollone, conselheiro legal da Casa Branca e integrante da equipe de defesa.

O advogado Jay Sekulow, por sua vez, mirou também nas investigações sobre a interferência russa nas eleições de 2016, assim como possíveis ligações entre o caso, que não foi alvo de impeachment, e as acusações atuais, relacionadas à pressão que a Casa Branca fez sobre a Ucrânia por uma investigação contra o ex-vice-presidente Joe Biden. 

Ele atacou o trabalho do promotor especial Robert Mueller e disse que "o presidente dos EUA, mesmo antes de se tornar presidente, já estava sob investigação".

Contudo, o grande assunto dos momentos finais da defesa foi a divulgação de trechos do livro do ex-conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, na noite de domingo. 

O manuscrito revela que Trump suspendeu um pacote de ajuda militar à Ucrânia como forma de pressão pelo inquérito sobre os negócios de um filho de Biden, Hunter, no setor de energia do país. O democrata é apontado como um dos favoritos para disputar a Presidência em novembro, e, segundo o relato de outras testemunhas, o presidente queria "achar alguma sujeira" sobre ele.

Sekulow rejeitou a hipótese de aceitar as palavras de Bolton como provas, dizendo que "este não é um jogo de vazamentos e manuscritos sem origem revelada".

“Vamos ser específicos, você não pode afastar um presidente com base em uma alegação cuja origem é desconhecida. Mas o que o professor Alan Dershowitz [integrante da defesa de Trump] estava dizendo é que mesmo que tudo ali seja verdade, constitucionalmente não chega a esse nível [afastamento do cargo].”

Abuso e obstrução

O processo contra Donald Trump foi iniciado em setembro, após denúncias relacionadas a uma conversa entre ele e o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, onde ele teria pressionado pela investigação contra os Biden. 

Um inquérito foi aberto na Câmara, ouvindo dezenas de testemunhas e analisando milhares de páginas de documentos. Ao final, a Comissão de Justiça decidiu apresentar acusações de abuso de poder e obstrução do Congresso contra o presidente, decisão referendada pela Câmara, de maioria democrata.

Com isso, o processo chegou ao Senado, e o fim da exposição da defesa marcou a primeira etapa desse julgamento. Agora, segundo o líder da maioria, senador Mitch McConnell, nos próximos dois dias, serão destinadas 16 horas para perguntas de democratas e republicanos aos dois lados, divididas de forma igual: oito horas para cada lado./NYT, W.POST e AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.