AP Photo/Andrew Harnik
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Convenção republicana: Pressionado, Trump acusa democratas de usarem covid para ‘roubar’ eleição

Atrás do democrata Joe Biden nas pesquisas, presidente americano é oficializado como candidato do partido e abre a convenção republicana com discurso voltado para a base conservadora e focado no desempenho da economia antes da pandemia

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2020 | 14h09
Atualizado 24 de agosto de 2020 | 21h00

A largada da convenção republicana nesta segunda-feira, 24, é uma amostra do que se espera dos próximos dias: todas as atenções em Donald Trump. Ao ser confirmado de maneira protocolar como candidato à Casa Branca, o presidente fez um discurso inflamado no qual focou no desempenho da economia e atacou o voto por correspondência, ao acusar os democratas de “usarem a covid-19 para roubar a eleição”. 

O padrão é que candidatos discursem apenas no último dia da convenção, mas Trump decidiu fazer pronunciamentos em todos os quatro dias do evento. Enquanto os democratas levaram líderes jovens e velhos, de alas variadas do partido, os republicanos devem fazer hoje e nos próximos dias uma reverência à Trump. Os principais nomes na convenção, além do presidente e do vice, Mike Pence, são parentes de Trump e aliados, como o secretário de Estado, Mike Pompeo.

O discurso de hoje mais cedo, em uma aparição surpresa, foi uma repetição dos ataques que o presidente vem fazendo ao voto por correspondência e aos democratas. “Eles estão tentando de novo”, disse o presidente, ao acusar os rivais de coisas “muito ruins” na eleição de 2016. “É a eleição mais importante da história do nosso país”, disse Trump, no discurso em Charlotte, na Carolina do Norte. 

Sob pressão das pesquisas, Trump começa a colocar em dúvida a legitimidade do processo eleitoral e tem travado uma guerra contra o voto por correspondência. Muitos Estados ampliaram a possibilidade de votação não presencial, admitindo o voto pelos correios sem necessidade de justificativa, para evitar aglomerações em meio à pandemia.

 

O voto a distância pode atrasar a apuração, mas não há indícios de que o procedimento – que já é adotado há anos nos EUA – aumente o risco de fraude. Republicanos e democratas defendem voto por correspondência e o próprio Trump votou pelos correios durante as primárias na Flórida, em março. 

Os republicanos prometeram que a convenção seria um momento de “esperança”. O primeiro evento do primeiro dia, no entanto, ficou distante disso. O presidente acusou a oposição de tramar uma “fraude” e disse que a vitória de Joe Biden representará o “fim do sonho americano”, com a indicação de juízes “da esquerda radical” para a Suprema Corte.

Enquanto a mensagem dos democratas foi a de que Trump é uma ameaça à democracia, os republicanos optaram por explorar o bom desempenho da economia antes da recessão causada pela pandemia. “Antes da praga chegar da China, tínhamos a melhor economia da história do país”, disse Trump.  

Ao discursar pouco antes de Trump, Pence estabeleceu o contraste com a mensagem democrata. “Ouvi na semana passada que a democracia está nas cédulas. Mas acho que todos sabemos que é a economia que está nas cédulas”, afirmou o vice republicano. Na convenção democrata, Biden afirmou que “decência, ciência e democracia estavam nas cédulas de votação deste ano”. 

A preocupação do presidente com a economia e a baixa popularidade fizeram com que ele pressionasse governadores a adotar uma retomada prematura das atividades em abril. Em Estados onde o vírus ainda não estava sob controle, governados por republicanos, a retomada provocou novos surtos de covid-19. A pandemia vem sendo explorada pelos democratas. 

Trump entendeu o recado. Hoje, ele voltou a dizer que salvou “milhões” de vidas com a restrição de voos da China e as medidas de isolamento social – as quais defendeu por um brevíssimo período, após quase três meses ignorando alertas da comunidade científica.

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Se os democratas usaram a convenção para atingir um leque amplo de eleitores, com mensagem aos moderados e à esquerda progressista, Trump optou por reiterar conceitos importantes para sua base mais fiel e acusar o rival de se alinhar com a esquerda radical, apesar de Biden fazer campanha como candidato de centro.

Até o momento, não há sinais de que Trump pretenda moderar o tom para buscar os eleitores independentes. Com a perspectiva de que deve perder no voto popular, a estratégia republicana é intensificar o apelo à base radical com a aposta de que o apoio em Estados específicos garanta a Trump a maior parte dos votos no Colégio Eleitoral, como aconteceu em 2016. 

Sem propostas políticas

O partido governista preferiu não votar no documento tradicional que detalha suas propostas políticas, dizendo que apoia o que Trump está fazendo. Já a campanha de Trump divulgou uma série de objetivos pontuais, incluindo a promessa de “criar 10 milhões de empregos novos em 10 meses”.

Em um contraste com o evento democrata, que contou com os três ex-presidentes democratas vivos e com antigos indicados, a convenção republicana não contará com discursos de ex-presidentes vivos ou candidatos.

Nem o ex-presidente George W. Bush, nem o ex-candidato presidencial republicano de 2012, Mitt Romney —que votou a favor do impeachment de Trump— planejam falar. Também estarão ausentes vários colegas de sigla que enfrentarão eleições disputadas em novembro, como o senador Thom Tillis, da anfitriã Carolina do Norte.

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