Nicholas Kamm / AFP
Nicholas Kamm / AFP

Análise: Republicanos são do partido de Joe McCarthy

Legenda de Trump é hoje um vasto repositório de teorias da conspiração, fake news, acusações falsas e fantasias paranoicas

Fareed Zakaria* / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2018 | 05h00

É comum ouvir e ler sobre o controle do Partido Republicano pelo presidente Donald Trump. Certamente, há muitas evidências de que hoje os republicanos são motivados por uma devoção inquestionável a Trump e suas ideias, sejam lá quais forem. 

No entanto, o problema é que os republicanos estão se tornando não um partido de Trump, mas de Joseph McCarthy, senador do Estado de Wisconsin que, nos anos 50, acusou o Departamento de Estado de traição. McCarthy chamou de traidor George Marshall, comandante do Exército durante a 2.ª Guerra e depois secretário de Estado e da Defesa, e insinuou que o governo americano estava sendo comandado secretamente pelo Kremlin.

O Partido Republicano hoje é um vasto repositório de teorias da conspiração, fake news, acusações falsas e fantasias paranoicas. Vejamos o exemplo mais recente. Trump vem assustando grande parte do país em razão de um pequeno grupo de imigrantes da América Central que busca fugir da pobreza e da violência e espera chegar à fronteira dos Estados Unidos e pedir asilo. 

É perfeitamente razoável a oposição à sua entrada. Contudo, é também cruel demonizá-los constantemente. Os republicanos, porém, não estão satisfeitos apenas em se opor à concessão de asilo para eles e têm criado fatos do nada, inventando conspirações sobre quem está por trás desse grupo de imigrantes desvalidos.

Na semana passada, um conhecido apresentador da Fox News, canal que hoje é o “Pravda do Partido Republicano”, sugeriu que mais de 100 combatentes do Estado Islâmico foram pegos “tentando usar essa caravana”. Trump, um assíduo telespectador da Fox, aproveitou a afirmação para declarar que “indivíduos do Oriente Médio desconhecidos” haviam se juntado à caravana. O deputado Matt Gaetz, republicano da Flórida, indagou se o doador democrata George Soros estaria financiando a marcha.

Nenhuma dessas afirmações tem a mínima base de verdade. Mas elas são repetidas e reforçadas por todo o país. A noção de que Soros é o cérebro por trás de todos esses tipos de movimento está agora profundamente incrustada no Partido Republicano, a ponto de líderes veteranos do partido, como Kevin McCarthy, deputado pela Califórnia, e o senador de Iowa, Charles Grassley, repetirem isso quase que instintivamente. 

O deputado Steve King, também de Iowa, acusou Soros de apoiar um grande esquema para introduzir sistematicamente estrangeiros no país com o objetivo de substituir americanos – em outras palavras, brancos – por “bebês de outra pessoa”.

As falsas acusações contra Soros são reveladoras. Lembremos que ele é um dos mais bem-sucedidos empresários da história, que enriqueceu com base na forma mais pura de capitalismo, lendo e apostando no mercado. Tornou-se um dos mais importantes filantropos do mundo. 

Sua fundação gastou mais de US$ 14 bilhões até agora, em grande parte apoiando grupos de direitos humanos e anticomunistas, primeiro na Europa Oriental e depois no mundo todo. Ele também financiou várias ideias liberais, desde a reforma do sistema prisional até a legalização da maconha, muitas das quais hoje são defendidas.

Então por que esse foco em Soros? Ele não é somente o grande financiador de causas e candidatos liberais. E não é uma figura misteriosa: proferiu incontáveis discursos, deu entrevistas e escreveu muitos livros e artigos. Sua Open Society Foundation divulga todas suas subvenções em seu website. No entanto, Soros é o perfeito bode expiatório para os teóricos da conspiração. É rico, poderoso, cresceu no exterior, tem um sotaque estrangeiro e é judeu.

Esses dados são fatos que os republicanos se empenham em negar, mas o problema é que não é apenas Soros o alvo. Muitos republicanos agora se referem com frequência e abertamente aos perigos dos “globalistas” – que, por alguma razão, tendem a ser financistas judeus (como Lloyd Blankfein, Gary Cohn, Janet Yellen, George Soros). Diante das terríveis difamações históricas, neste aspecto, podemos apenas concluir que elementos do Partido Republicano ou estão totalmente desinformados no tocante ao antissemitismo ou o estão encorajando vigorosamente.

E não termina aqui. Em seu fascinante livro, Fantasyland: How America Went Haywire, Kurt Andersen descreve a montanha de teorias de conspiração urdidas pelos republicanos nos dias atuais – sobre as Nações Unidas, vacinas, controle de armas, a sharia (lei islâmica), entre outros assuntos. Com base em nenhuma evidência numa era da ciência e da tecnologia, essas ideias hoje são mais difundidas do que jamais se viu antes.

Os Estados Unidos têm uma história de política paranoica instilada pela crença de que alguma conspiração oculta existe para trair a república. No entanto, essas forças costumam ser periféricas, expressadas por figuras marginais. Quando pareciam crescer, como no caso da John Birch Society, nos anos 60, conservadores tradicionais como William F. Buckley as denunciaram pública e energicamente. 

Hoje, republicanos veteranos os imitam. O presidente Trump endossou fragorosamente Alex Jones, o mais radical e influente teórico da conspiração, afirmando que “sua reputação é impressionante”, em uma entrevista dada a ele em 2015. “Eu não o decepcionarei.”

O Partido Republicano tem muita gente boa e ótimas ideias. Mas nada disso importa enquanto ele abrigar e alimentar fantasias, conspirações e paranoias com toques de racismo, intolerância e antissemitismo. Hoje, os republicanos são exatamente o partido de Joe McCarthy e, enquanto esse câncer não for extirpado, o poder não deve ser confiado a eles. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA

 

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