Republicanos veem América Latina 'bolivariana' e 'pró-Teerã'

A América Latina descrita nos programas de governo dos pré-candidatos republicanos parece saída de um thriller americano lado B. A região é um terreno fértil a "autocratas" bolivarianos, onde agentes iranianos e do Hezbollah aliam-se a cartéis da droga, enquanto imigrantes em potencial tramam como roubar empregos de trabalhadores americanos desprotegidos.

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2012 | 03h03

Os países abaixo do Rio Grande - assim como o restante do mundo - quase não são citados nos debates entre republicanos, como tradicionalmente ocorre nas primárias dos EUA. Quando a região aparece, vem com contornos caricaturais.

Os projetos de diplomacia latino-americana do ex-governador de Massachusetts Mitt Romney e do ex-senador da Pensilvânia Rick Santorum têm três motes principais. Há o temor de o modelo "cubano-chavista" dominar a região, de o Irã expandir suas raízes no "quintal americano" (ambos pré-candidatos usam a velha expressão) e de haver uma explosão dos carteis da droga.

Os dois prometem ainda ser implacáveis no combate à imigração - tema de política doméstica especialmente sensível à região e ao eleitorado latino.

"Pessoas como Romney e Santorum têm uma visão extremamente maniqueísta da América Latina. Para eles, os EUA devem apoiar de forma inequívoca os 'bons' na luta contra os maus - chavistas, traficantes e iranianos", diz Michael Shifter, diretor do Diálogo Interamericano, de Washington. "Mas a região não é uma prioridade e só aparecerá nos debates se crescerem indícios da conexão entre o Irã e a América Latina", calcula.

Há três semanas, a rede NBC revelou que o avô de Romney nasceu no México. Mórmons, os Romneys viviam em uma comunidade religiosa do Estado de Chihuahua e o sobrenome do pré-candidato ainda é encontrado na região. Se quisesse, o candidato poderia obter nacionalidade mexicana, observou o jornal Reforma, da Cidade do México.

Analistas ficaram esperando Romney usar sua árvore genealógica para tentar atrair os preciosos votos hispânicos. A comunidade latina apoiou em massa o candidato Barack Obama em 2008 e, de forma geral, continua mais próxima dos democratas. Mas uma pesquisa do Instituto Pew mostra uma mudança: em um ano, a aprovação de Obama entre hispânicos caiu 63% e hoje pouco mais da metade do eleitorado hispânico se diz contente com o presidente.

Romney, porém, praticamente silenciou sobre seu passado mexicano. Ele voltou a defender uma muralha para separar os vizinhos, o reforço de patrulhas de fronteira e a deportação de clandestinos - promessas que agradam aos radicais republicanos.

Santorum também fecha com as alas mais à direita do partido. O Estado conversou com uma funcionária do Senado que trabalhou com ele na área de política externa. Ultraconservador, o senador apoiava programas de assistência à África, como o de combate à Aids - sem apoio ao uso de preservativos - e o de luta contra a malária.

A funcionária, que pediu anonimato, diz que no começo do mandato Santorum sabia muito pouco de política externa. Com o tempo, envolveu-se com o tema. "Ele é alguém que acredita na existência do mal e do bem. Se for presidente, levará essa visão à América Latina."

Brasil. O único candidato que deu atenção à emergência do Brasil foi Jon Huntsman, ex-embaixador de Obama na China. "Os EUA não podem continuar a ignorar o potencial de uma parceria estratégica", diz em seu plano de governo. Huntsman, porém, abandonou a campanha na semana passada.

O ex-deputado Newt Gingrich pediu o cancelamento da venda de aviões da Embraer à Força Aérea americana - "não entendo como Obama permitiu que o Brasil vencesse a concorrência", disse. Ele ainda criticou o apoio do presidente a investimentos de petrolíferas americanas no pré-sal brasileiro.

O Itamaraty acompanhou de longe os ataques de Gingrich, considerando-os parte do jogo eleitoral. "Quanto menos os republicanos falarem de nós, melhor", diz uma fonte brasileira.

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